Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Ca punha, Lopes!

Regionalização e representação territorial

Ca punha, Lopes!

Escreve quem sabe

2018-11-23 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Eu ia jurar que tinha compreendido. Fiquei, porém, na dúvida. Seria do calor? Só podia ser, pois o sol brilhava e de nuvens não se vislumbrava nada. Aceitei a coisa como um facto natural, característico do género feminino, muito preocupado com a pose, com o traço nos olhos, com o penteado irreprovável e cheio de feitiços. Ela tinha dito, meio aflita, que precisava de voltar à cabeleireira. Que tinha o cabelo alagado. E eu fiquei ali, pensativo. Seria do calor? Nem sequer o lago me passou pela cabeça, que é esse o sema principal da palavra. Irrompeu-se-me, sim, a água pelo pensamento, eu bem olhei, e olhei, sem enxergar pingo de água. Enfim, coisas de mulheres.
À noite, não sei se havia grão na asa. Digo grão por causa do chumbo, se não descambava no greiro e, naturalmente, o âmbito semântico escoltava o descambo.
A festa fora farta e justificava a euforia. Ca punha!...? Ouviu-se no interior de uma vigorosa gargalhada.
Ca punha? ? Ah, ah, ah!... Sim, ca punha. Não conheces?
Eu, não! ? E espiralei os olhos. Não soube explicar, mas eu percebi que havia por ali um «Que punha» foneticamente adulterado, talvez embalado em duas doses de espumante cava.
Quando disse, num momento de esquizofrenia geral, «Que punha, Lopes!», atingi, pelo tom, o sentido mais profundo da expressão por mim inexplorada. «Não ligues, que eu sou uma despassarada”, disse-me, alvejando-me os olhos com olhinhos de chocolate. Ao lado, surfando a deleitação da onda, cerziam-se costuras. A mãe bem dizia que a filha era chanfrada, que não ligasse, andava precisada de alagar bainhas, era o que era. Alagar bainhas?
Ó dona Conceição, explique-me essa, que eu não percebi. Tem de meter a roupa em água para coser as bainhas?
Não, homem de Deus, tem de desfazê-las, para depois voltar a subi-las. Não viu que as calças estavam muito compridas?
Ca punha!... ? E dei um murro na palma da outra mão. ? Sou mesmo burro. Finalmente percebi. Ah… Agora, sim, agora percebo porque me deixaste pendurado de manhã. Não tinhas o cabelo molhado. Claro que não, tu não viste que estava um pouco despenteado, fui só dar-lhe uma arranjadela. Que raio, tenho mesmo de ter muito cuidado, a língua varia no espaço de poucos metros, de poucos quilómetros, neste caso e, se não nos pomos a pau, sai mesmo bacorada.
O melhor da festa estava, no entanto, para vir. Isto para quem gosta de bolinhos de bacalhau, croquetes e rissóis, especialidades da dona Conceição, outrora cozinheira dos melhores restaurantes de Riba e das redondezas. A bacalhau, presume-se que sabem os bolinhos, pois os croquetes são miscigenados de carnes, brancas ou vermelhas, consoante o farnel da véspera. Mas os rissóis, a que sabem? Sabem a pato! Você ontem matou pato! E mais duas gargalhadas. Ai sabem, sabem. Captei a ironia e cavalguei o riso. Entre denotações e conotações, o importante é a compreensão das ironias. Vai dormir, que o teu mal é sono, vai, que não estou para te apajar.
E lá fui, não sem tirar a casca à última palavra, que desconfio derivada de pajem, o serviçal do rei que, por óbito da profissão, desapareceu do mapa. Eu juro que ouvi apajar, ou teria sido apaijar? Nem me lembro muito bem, mas adormeci matutando em apajear, cheirando a pato e envolvido em greiros enormes alagados por ondas de vento.
Ca punha, Lopes!...?

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