Correio do Minho

Braga, terça-feira

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'Cabrito assado no forno!', por José Manuel da Silva Barros

Sem paralelo

Conta o Leitor

2011-07-20 às 06h00

Escritor Escritor

Eram 10 horas da manhã, quando o Lopes chamou à sua presença os operários:
- O engenheiro da Câmara oferece cabrito assado no forno caso terminem a obra ainda hoje.
- Quem paga? - perguntou o calceteiro.
- O engenheiro Morais ou a Câmara Municipal, que interessa!
- Quem é o engenheiro Morais?! - perguntou o homem na sua inocência.
- É um novato que chegou aí há coisa de instantes e quer mostrar serviço ao superior.

O troço de estrada, com 1 quilómetro de extensão, tinha de ficar pronto desse p’ró que desse, senão não havia cabrito assado no forno p’ra ninguém. Naqueles tempos de privação, uma oferta daquelas não se podia recusar, era um maná caído dos céus, ou melhor, do Município.

Os homens acordaram e deitaram mãos à obra. Não era todos os dias que se comia cabrito assado no forno, ainda, por cima, no restaurante Alívio dos Mortais. Lopes, o encarregado-geral da obra, nunca lá tinha comido a especialidade da casa, prato tão afamado e apreciado na região. O próprio dono fazia questão de o dizer à boca cheia, em tom de reinação para os fregueses:

- Se queres livrar-te da morte, come cabrito assado no forno no Alívio dos Mortais!
Durante a manhã, o encarregado não se cansou de puxar pelos operários, dando ele mesmo o exemplo de como se pode acabar uma obra antes do tempo previsto. Basta haver uma motivação, um incentivo extra, como um cabrito no bucho de cada um.

Com efeito, ao meio-dia e trinta minutos, em ponto, os homens tinham completado quinhentos metros de estrada empedrada. Um feito extraordinário! Nunca em Portugal até à data se trabalhou tanto em tão pouco tempo. Este povo, quando quer, é fantástico!

- Vamos ao tacho, rapazes! - exclamou o encarregado-geral. - O senhor engenheiro também vem connosco?
- Evidentemente! - respondeu o municipal, com um sorriso nos lábios.

Entraram no estabelecimento. Eram doze homens para encher uma mesa comprida ao fundo do restaurante. Veio o cabrito para a mesa, partido aos bocados em terrinas que se contavam seis por sua conta. O molho especial a cobri-lo como manda a tradição da casa. Vinho maduro, que este cabrito tem de ser regado com Borba, e mais três travessas com arroz e salada.

Comeu-se bem e bebeu-se melhor. A meio da conversa, Lopes perguntou quem iria ser o campeão.
Morais levantou-se e, peremptório, respondeu:
- O Belenenses!
A tirada provocou um banho de riso entre os operários.
- Ó homem! Estou a dizer-lhe que vai ser o Belenenses!
Lopes olhou para o municipal e rematou:
- O senhor Morais vai desculpar-me, mas essa é boa, muito boa! O Belenenses, campeão de Portugal! Haveria de ser bonito!
- O senhor é o engenheiro Morais? - Interrompeu o servente.
- Sou, sim senhor.
- Está um senhor ao telefone. Quer falar consigo, urgentemente.
- Meus senhores, volto já!

E levantou-se para atender a chamada. Dali a pouco regressou à mesa, muito aflito.
- Meus senhores, recebi uma chamada da Câmara. Os deveres…
- Não se preocupe, Sr. Engenheiro! - exclamou Lopes. - Vá lá à sua vida que nós cá nos arranjamos!
- Lamento, meus senhores.
- Ó doutor! Não se prenda por nós, por favor! - atirou um calceteiro.
- Ao fim da tardinha, voltarei.
- Esteja descansado que a obra fica pronta, doutor! - asseverou Lopes, com um aperto de mão sólido.

Vieram as sobremesas, um bolo de chocolate, pudim, fruta da época, mais tarde o café, com um cheirinho de brandy para quem quisesse. Quiseram todos. Até que o sino da torre da igreja da Nossa Senhora do Alívio repicou catorze badaladas. Lopes olhou para o relógio e sorriu. Tinham luz para mais quatro horas. Se em duas horas haviam feito meio quilómetro, em quatro acabariam o troço antes do sol se pôr. Por isso, nada de pressas.

- Estejam à vontade - dizia o gerente.
Que não, que não podiam demorar muito mais tempo porque ainda tinham um estirão para empedrar. Quando chegasse o engenheiro ao fim da tardinha, tinham de…
- O engenheiro?! - interrompeu o dono, admirado.
- Sim, o engenheiro Morais da Câmara.
- Não conheço.
- O senhor que esteve connosco a almoçar. - observou Lopes.
- Ah, sim! O senhor que encomendou o cabrito, de manhãzinha?
- Esse mesmo! - exclamou um dos pedreiros.
- Pois bem! Vamos a contas!

A exclamação arrancou silêncio no grupo. O gerente agarrou um papel e foi dizendo:
- Ora são… um cabrito inteiro fica a… mais três doses de arroz dá… salada, sobremesa e café… perfaz, ao todo, a quantia de… dois contos de reis!
Operários ficaram boquiabertos. Era uma soma avultada, sim senhor, que o engenheiro ou Câmara teriam de pagar. Mas que diabo! Eles também o mereceriam.

Lopes levantou-se da mesa e agradeceu:
- Senhor Alívio! Dou-lhe os meus parabéns! Nunca comi cabrito assado no forno tão bom como este!
- Agora que estão todos satisfeitos, vamos ao pagamento, rapaziada!
- Qual pagamento?! - perguntou Lopes, estupefacto.
- Ora! Quem come, tem de pagar, não é assim, amigo?
- Desculpe, senhor Alívio. Eu estou na ideia que essa conta será saldada pelo Engenheiro…
- Não conheço nenhum engenheiro. Vamos lá, rapaziada! Não tenho o tempo todo!

Os operários entreolharam-se de espanto.
- Ai o cabrão! Querem lá ver que nos enganou! - exclamou Lopes.
Telefonaram para a Câmara. Não havia engenheiro com o nome Morais.
- E agora? - perguntou um dos calceteiros.
- E agora estamos encravados! - respondeu Lopes, coçando a cabeça.

Estavam sim senhor, eles e o dono do restaurante Alívio dos Mortais que não se hão-de esquecer de ter passado por ali um tal de Engenheiro Morais que lhes passou a perna e aliviou o estômago para se livrar da fome.

Quanto à obra, escusado será de dizer que não foi concluída nesse fim de tarde. Foram precisos mais dois dias para que o troço estivesse finalmente operacional. Mas nem tudo foi mau. Nesse ano, o Belenenses foi campeão de Portugal.

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