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Coração com dono

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Coração com dono

Voz aos Escritores

2019-05-10 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

«Um povo / metei-o na cadeia / despojai-o / tapai-lhe a boca: / é ainda livre. // Tirai-lhe o trabalho / o passaporte / a mesa onde come / a cama onde dorme: / é ainda rico. //
Um povo torna-se pobre / quando lhe roubam / as canções / que aprendeu dos pais. // Então fica perdido para sempre».
(Ignazio Buttita)

Na verdade, um povo fica mais pobre quando perde a herança da sua identidade cultural e social: a sua música, as suas danças, os seus contos e provérbios, enfim, os seus usos e os seus costumes.
Falar e escrever sobre eles é uma excelente forma de os manter vivos.
As canções tradicionais lendárias são geralmente de origem remota e têm caráter poético. Incluem-se aqui as canções de embalar da nossa infância.
E como as canções de infância são importantes no crescimento harmonioso de uma criança! Quem nunca adormeceu embalado por O João dorme:
“Ó Maria, dize áquela cotovia/Que fale mais devagar:/ Não vá o João acordar[…] //Ó Mãe! canta-lhe uma canção,/os versos do teu irmão:/Na Vida que a Dor povoa,/Há só uma coisa boa,/Que é dormir, dormir, dormir…/Tudo vai sem se sentir.»//Deixa-o dormir, até ser/Um velhinho…até morrer!//
(António Nobre)
Quantas crianças não papaguearam vezes sem conta esta e outras canções até as mandarem calar?
Estamos conscientes de que a transmissão desta e outras manifestações culturais deve ser capaz de se renovar e de se atualizar de modo a manter o seu valor e a sua utilidade, isto é: podem perfeitamente adquirir-se novas expressões sem ter necessariamente de se perder a sua essência.
Por isso, falar de herança cultural em pleno mês de maio é celebrar o mês do coração. Mês do coração e da mãe. E no mês em que se homenageia a mãe, cabe uma reflexão sobre o amor, amor incondicional, sem amarras, sem posse, o coração genuíno de mãe.
Coração de mãe é uma couraça, nunca se verga, sustenta-a durante as noites de insónia e as horas de oração, velando a nossa febre de criança, esperando a nossa madrugada adolescente, os nossos telefonemas, enfim, sempre à espera de escutar a nossa voz viva. As mães têm uma fé e uma força imensuráveis. A este propósito, diz Chico Xavier que a oração de uma mãe arrebenta as portas do céu. Por isso, é tão difícil escrever sobre o coração de mãe sem que as palavras enveredem por um viés deliciosamente emotivo!
Pois é, mães são amor em estado puro, desprovido de censuras e etiquetas, de qualquer senso que possa existir. E é exatamente isso que as torna essenciais, indispensáveis, inesquecíveis e únicas nas nossas vidas.
Mãe é a segurança, o esteio, o porto-seguro para onde voltamos sempre. Não existe nada mais tranquilizante do que sentir a mão da mãe na nossa cabeça. É neste preciso momento que sinto a mão pequenina dos meus filhos tal como no poema de Almada Negreiros senti a mão da nossa mãe:
“Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar!
Quando voltar, é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. […]
Quando passas a tua mão na minha cabeça, é tudo tão verdade!”
Não há comida mais saborosa, nem cheiro mais penetrante ou voz mais estimulante do que a de nossa mãe. Sabemos que, quando ninguém mais nos der razão, no colo das mães encontraremos consolo e compreensão. Elas estão ali ao lado dos filhos, firmes, esperançosas, quando nada mais parece ter salvação, à cabeceira das sessões de quimioterapia, à porta das urgências, em frente aos portões das prisões.
Mãe é esperança sem fim, é coração infinito. Não erra deliberadamente. Vê num filho o seu projeto de vida, a sua perpetuação nesse mundo, o legado que deixa à sociedade, por isso sente-se relutante tantas vezes diante das falhas, dos vícios e dos erros de seus filhos. Aceitar as suas imperfeições exige de uma mãe a desconstrução de si mesma e abrir mão de planos desenhados em contramão.
E quantas vezes, aos nossos olhos, parece que tudo fora em vão, especialmente quando mãe também é solidão. Ali está ela, entregue a si própria, num qualquer lar para a terceira idade, aguardando ansiosa pelas parcas visitas ou mesmo inexistentes. É sempre um amor que nunca desiste da esperança, da persistência, da aceitação e resignação. Não questiona, não cobra coisa alguma. Mães não morrem como as outras pessoas – elas são tiradas de nós, abruptamente, sem aviso, porque nunca estaremos preparados para enfrentar a vida sem elas. Então, vamo-nos agarrando dolorosamente às memórias, às fotos, filmes, cartas e à certeza de que teria sido muito pior se tivéssemos sido nós tirados delas, tentando nos consolar e aprumar nosso navio que parece navegar à deriva de nós mesmos, enquanto vivenciamos os ambientes sem a sua presença e nos consolamos com as suas visitas nos nossos sonhos, tal como podemos ler nos versos de Eugénio de Andrade:
No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.[…]
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.[…]
E, nesse processo de luto, somos obrigados a aprender a viver sozinhos, sem a ternura, a bravura e a sabedoria de um de nossos sustentáculos emocionais mais preciosos. Enfim a dor, burilada e mitigada, transforma-se em saudade contida e em gratidão por termos sido filhos das melhores mães do mundo.
Mãe, quando a saudade vier,
Pouse nas flores que lhe trouxer
O seu exemplo de mulher!
Fernanda Santos, Ecos da Alma.

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