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Da Queda do Muro e dos novos muros que se levantam

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Da Queda do Muro e dos novos muros que se levantam

Ideias

2019-11-16 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

As grandes efemérides sempre trazem na cintura dos dias que as envolvem, uma fértil partilha de leituras e de interpretações sobre o sentido daquelas. A celebração da Queda do Muro de Berlim, no passado dia 9 de novembro, é disso claro exemplo. Na crónica desta semana, também eu busco modestamente entrar nessa cintura de poeira interpretativa que tende a orbitar em torno de factos históricos como se de corpos celestes se tratassem.
Na sessão plenária do Parlamento Europeu da passada quarta-feira, dia 13, na celebração simbólica que aí decorreu durante a tarde, ouvi o discurso de Wolfgang Schäuble, atual presidente da Câmara Baixa do Parlamento Alemão (Bundastag) e que por cá, confessemos, não será propriamente uma figura que muitos recordem com especial estima. Mas quem falou perante o Parlamento Europeu e perante os milhões de cidadãos europeus que este representa, não foi o ex-ministro das finanças alemão, antes foi o cidadão, o homem de setenta e sete anos que testemunhou, na primeira pessoa, um momento histórico de verdadeira beleza. De facto, parece que em raros momentos, as utopias resolvem sair do seu mundo-tempo mágico e condescendem em vir até nós, interrompendo o que parecem linhas inquebráveis de fealdade, sofrimento e tristeza.

Assim era para mim a Guerra Fria: uma realidade que pelos meus olhos, primeiro de criança e depois de adolescente, me parecia tão cinzenta e feia como de inevitável continuidade. E assim a noite da Queda do Muro pareceu, por oposição, um momento quase irreal, incompreensível, em que a leitura racional dos atos era difícil, mas também era supérflua, pois aquele tempo (ainda que breve) seria o tempo da alegria. Schäuble recordou no seu discurso que esse momento só foi possível pela vontade determinada e pacífica de milhões de cidadãos europeus de Leste, que incansavelmente lutaram pela conquista da liberdade. A unificação da Alemanha foi durante décadas, a pedra de toque que faltava e que permitiria completar a unificação da própria Europa. Sem essa unificação, a reconciliação da Europa, herdeira de uma guerra especialmente traumáticae hedionda, estaria irremediavelmente incompleta e estaria perigosamente em causa, pois seria incomportável que no longo curso a Europa pudesse albergar dentro de si tamanha pecha, tamanha mácula.

A invocação da vontade determinada e pacífica de milhões de cidadãos, recorda-nos que o desejo de liberdade e de dignidade que está em cada mulher e em cada homem é como uma força da natureza: pode ser lenta, mas é, ela sim, inevitável, imparável, inquebrantável no seu propósito. Hoje, trinta anos volvidos sobre esse momento histórico, temos uma Europa que só a ingratidão ou a ignorância nos pode levar a considerar como sendo pior do que era no passado. Contudo, temos de permanecer vigilantes, pois são muitos os perigos à espreita. Schäuble colocou a tónica no regresso do anti-semitismo e do discurso de ódio contra os judeus. Mas facilmente podemos acrescentar muitos outros discursos de ódio, contra minorias, contra refugiados, contra migrantes… A crescente incapacidade em incorporarmos a fraternidade e a solidariedade como pilares da condução das nossas relações com os outros, é a argamassa de novos muros porque impede o reconhecimento da dignidade do Outro. Por isso, pese embora concordar na generalidade com tudo o que Schäuble disse perante o Parlamento Europeu, não creio que seja pela securitização das fronteiras que seremos capazes de nos proteger dos que atentam contra os valores humanistas.

A segurança das fronteiras é importante e necessária, mas quando vista como um fim em si mesmo, sem pensar em formas de repartição solidária de responsabilidades entre os Estados pelo acolhimento dos que nos procuram por desespero; quando tendemos a encará-los como potenciais inimigos ao serviço de um qualquer plano diabólico de infestação e destruição cultural; quando optamos por virar a cara às mulheres e crianças de Moria ou de Vucjak, então somos nós quem incorremos no maior atentado aos valores humanistas que defendemos.

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