Correio do Minho

Braga, sábado

De Branco (e Amarelo)

Menina

Escreve quem sabe

2019-03-12 às 06h00

Analisa Candeias

Os enfermeiros deviam manifestar-se mais vezes. Não é que eu goste muito de confusão, ou de grandes barulhos, mas penso que os enfermeiros deviam fazer alarido mais vezes. Talvez o caminho não passe por fazer mais greves, mas sim fazer mais confusão. Não me entendam mal: as greves são necessárias. E justas. Temos direito a elas, por mais que nos apelidem de criminosos insurretos. Ou de indisciplinados - também é um adjetivo utilizado. Mas nós, os enfermeiros, começamos a ficar cansados de não sermos ouvidos.

Dia 8 de março, para além de ter uma conotação feminina associada, é também um dia importante para os enfermeiros, visto que é o dia do nosso padroeiro, S. João de Deus. Este santo português, nascido em Montemor-o-Novo, é também o santo padroeiro dos livreiros, dos hospitais e dos doentes. E, no último 8 de março, os enfermeiros decidiram fazer uma marcha na capital do nosso país – dia muito apropriado, na minha opinião. Marcha branca, disseram os enfermeiros, marcha branca pelos nossos direitos e pelos nossos deveres, marcha branca pela igualdade, marcha branca pela dignidade da profissão – podia ser uma marcha branca e amarela, que são as nossas cores. Porém, nós, os enfermeiros, somos uns arruaceiros – saímos à rua para fazer desordem, para chamarmos a atenção daquilo que queremos.

Para quem não sabe, os enfermeiros apresentam, de acordo com o Regulamento do Exercício da Profissão do Enfermeiro (REPE), dois tipos de intervenções, autónomas e interdependentes, sendo que, as rotinas, fazem parte do trabalho de todos os profissionais de saúde, não são exclusivas dos enfermeiros. Aliás, de rotinas fazemos muito pouco, visto que o ser humano apresenta respostas muito amplas aquilo que são as suas transições no âmbito da saúde. Ainda para quem não sabe, a autonomia que apresentamos na decisão, e o facto de basearmos as nossas intervenções em ciência, são duas das alavancas para a nossa afirmação naquilo que é a prestação de cuidados de saúde. Por último, se ainda não estiver claro, os enfermeiros são produtores de conhecimento científico em ambiente académico, pelo que, colocar em causa a possibilidade de existir igualdade, perante as restantes profissões de saúde que se baseiam em princípios conceptuais idênticos aos nossos, é uma aberração. Nós, os enfermeiros, somos uns rebeldes, em especial por lutarmos por uma melhor saúde para todos.

Os enfermeiros deviam fazer-se ouvir mais vezes, através de um maior número de cargos políticos e governamentais, através da participação nos meios de comunicação social ou, ainda, através dos cidadãos que nos reconhecem o valor e sabem da nossa importância. Porque é a população a maior beneficiária da nossa marcha – é por aqueles que necessitam de cuidados de enfermagem que fazemos alvoroço.
Para que tenham melhores enfermeiros, para que sejam mais (e melhor) assistidos, para que haja equidade na saúde. E, igualmente, para que o futuro seja mais sadio e seguro.

Nós, os enfermeiros, gostamos de trabalhar com pessoas e, por isso, gostamos do desalinho que provocamos para que estas sejam mais saudáveis e, consequentemente, mais felizes.
Política e politiquices à parte – que não deviam fazer parte do mandato do momento - é desta união vestida de branco que se faz o caminho. Para mim tem sido um orgulho fazer parte deste bando de tumultuosos revolucionários que, nos últimos cento e alguns anos, têm vindo a lutar por melhores condições de trabalho e justiça.
O meu papel tem sido o de ajudar a educar os enfermeiros na sua independência e na construção de um conhecimento sólido e com raízes, para que possam fazer confusão sustentada. Confusões à parte, que haja muita confusão deste género – de branco, claro.

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