Correio do Minho

Braga, terça-feira

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

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Ideias Políticas

2018-09-25 às 06h00

Pedro Sousa

As cidades, hoje em dia, competem umas com as outras à escala global, tal como acontece com as empresas e demais organizações que não vivem à margem da economia de mercado.

Neste quadro, as cidades mais bem-sucedidas no plano global são aquelas que conseguem atrair mais pessoas, mais negócios, mais empresas, mais eventos, mais recursos humanos qualificados, criativos e talentosos.

É hoje, também, comummente aceite que o ecossistema mais adequado à atracção quer de pessoas altamente qualificadas, como de empresas e indústrias de ponta, geradoras de mais emprego, de mais riqueza e de mais oportunidades de realização para as pessoas, assenta num equilíbrio entre identidade, património, tradição e todos os caracteres que dizem respeito à modernidade: criatividade, cultura, I&D (investigação e desenvolvimento), empreendedorismo, inovação.

Foi, pois, com enorme prazer que, há cerca de quinze dias, assisti à (re)inauguração do Fórum Braga, agora Altice Fórum Braga, num negócio cujos contornos carecem, ainda, de maior clareza e distinção.

O Altice Fórum Braga veio dotar o Parque de Exposições de Braga, estrutura com mais de trinta anos e que, durante muito tempo, desempenhou um papel importantíssimo ao nível do posicionamento de Braga como Concelho atractivo para o turismo de feiras e congressos, de todos os caracteres da modernidade e inovação e isso, como Bracarense e actor político sério, que elogia sempre que é merecido e que critica sempre que é justo, não posso deixar de elogiar e reconhecer.

Apesar de ainda não serem conhecidos os resultados dos já requeridos testes acústicos, o Concerto da (re)inauguração, com a banda Norte-Americana dos Thirty Seconds to Mars, deixou pouca margem para dúvidas de que a acústica, um dos maiores problemas do “velhinho” PEB, se apresenta substancialmente melhorada.

Assim, é justo dizer que a opção pela requalificação do Parque de Exposições de Braga, ainda que faltem conhecer os valores finais da empreitada e sendo “vox populi” de que haverá uma derrapagem considerável nos valores finais face ao inicialmente apresentado, foi uma opção correcta, que, por dotar Braga de uma grande sala de espectáculos e de um espaço multimodal, capaz de múltiplas utilizações, equipado com tecnologia de ponta, capaz de posicionar Braga no roteiro dos grandes eventos nacionais e europeus, não podia deixar de saudar.

Infelizmente, e logo após este momento, Ricardo Rio e o seu executivo, talvez inebriados pelo sucesso da inauguração do Altice Fórum Braga, decidiram, perdoem-me a expressão, borrar a pintura toda.

Começaram por fazê-lo na Semana do Mundo Rural e das Freguesias, um evento com mais de uma década, que, tal como muitos outros, foi objecto de um nome mais pomposo e de um “rebranding” ao melhor estilo deste Executivo, para quem parecer é, sempre, mais importante do que ser.

Imagine-se que decidiram acabar com o espaço para as Freguesias mostrarem a sua cultura, a sua identidade, aquilo que tem de mais peculiar e especial. O artesanato, os cantares, os ranchos, as tradições mais populares não tiveram espaço neste certame, num evento que sempre serviu para exaltar o que Braga tem de único e irrepetível não houve espaço para mostrar nada do que temos de melhor, tendo, até, uma Freguesia da “Coligação Juntos por Braga”, decidido abandonar, em protesto, o dito certame.

Mas o pior estava ainda por vir e dá pelo nome de Confiança.

Ricardo Rio, candidato à CM de Braga desde 2005, sempre defendeu a compra, pela Câmara, daquele imóvel, algo que veio a fazer-se, com a sua colaboração e participação em todo o processo, em 2013.

A decisão de, agora, vender a Confiança é terrível para a cidade, na medida em que ditará o desaparecimento do último grande edifício ligado à história industrial do Concelho e terrível, sobretudo, para o seu futuro, na medida que representa a tal falta de equilíbrio, já antes referido, entre identidade, património, tradição e todos os caracteres que dizem respeito à modernidade: criatividade, cultura, I&D (investigação e desenvolvimento), empreendedorismo, inovação.

As cidades que, no futuro, serão mais procuradas para viver, para estudar, para visitar e fazer negócios, serão, indubitavelmente, aquelas que souberem preservar a sua unicidade, ao mesmo tempo que abraçam, com arrojo e fulgor, os ventos da modernidade.

Assim, destruir os sons, as cores, os edifícios, as marcas que fazem de Braga uma cidade única e irrepetível é um erro colossal que só pode fazer corar de vergonha Ricardo Rio, Firmino Marques e Miguel Bandeira, estes especialmente, não isentando, obviamente, de responsabilidades nenhum dos outros. Na verdade, a decisão de vender a Confiança e, sobretudo, de abdicar de tudo o que aquele edifício poderia significar para Braga, será sempre recordada como uma das piores decisões da história autárquica do nosso Concelho.

Ricardo Rio bem pode repetir mil vezes que herdou um pesado fardo, mil e um esqueletos e outras desculpas mirabolantes (todos sabemos a cidade que Braga já era em 2013 e tudo o que cresceu e modernizou sob a liderança do Partido Socialista) mas, acima de tudo isso, o que resulta claro é que, a partir daqui, a palavra de Ricardo Rio não merece nenhum crédito, nem Confiança, na medida em que este não hesita em romper os contratos que faz com os bracarenses, a fim de corresponder a outros interesses.

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