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Diabo e empecilhos

Regionalização e representação territorial

Diabo e empecilhos

Ideias

2019-09-15 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Lanço anzóis ao primeiro consulado de Costa e, no isco vivo, sai-me um peixe ferido com o diabo pela arreata, um carapau a atirar para um carapassos. É peixe que não me vai na dieta, que de estômagos reajo mal a escabeches de vinagre activo. Devolvo-o, pulsante, aos mares do esquecimento, e saltam-me ao rodafole, de moto próprio, uns peixes-papagaio, caturrando «maioria-maioria», «fora com empecilhos-empecilhos-empecilhos…». Atónito, qual Alice do lado de cá do espelho, fraquejo e degluto dose dobrada de pilulas da realidade, estranhando apenas o cinza da cor.
Costa seria da confraria dos que exortam o dianho, propalava por desfeita um Passos deposto, ultrapassado por negra conjugação de avidezes e desquerenças: queria lá a grande esquerda saber se depauperado ou não, sem crédito ou não, herdara ele um governo nos últimos estertores, um enfermo a quem nenhum padre melícias dispensava os derradeiros confortos da alma? Passos, e os do cardume, tinham carregado no bisturi e na língua, tinham cometido a imbecil proeza de colar a etiqueta de cúmplices às vítimas incautas dos criminosos: teríamos que aguentar, dizia-se, que já lá iam as vidas acima das posses, que nos deixássemos de lamechices, que nos puséssemos a andar para as estranjas, que nos afizéssemos a todas as pobrezas de salazarenta genealogia. Canalhices, em suma.
Fora a votos e, ainda assim, passara a perna a um PS por redimir, disfónico, a contas com socrática espinha entre as cordas vocais. Mas ei-la, a inédita reinterpretação da república – se dois, à direita, não chegam, três, à esquerda, dão vazão. Costa entronizado por Jerónimo, com Catarina por dama de honor.
Costa nem queria crer: não é que tinha conseguido deitar unhas ao passarinho!? Êxito retumbante, cá dentro e lá fora. Costa que milagre alheio inscreve na sua folha de serviço: viva a genialidade maquiavélica do Largo do Rato!
Jerónimo que carta quase branca passa a Costa, para que os da rosa, governassem à esquerda. Costa, gingão, que manobra à sinistra, com truques, mas que volteia como de Passos travestido. Unanimidade de comentadores: o PS tocou a barca com as folhas de rumo da direita – o espartilho do défice, o colete-de-forças da dívida externa, a finta das cativações, a deterioração dos serviços, porque não se pode gastar à toa, os assistentes operacionais que iriam para as escolas, mas que ficam em banho-maria, pendentes de testes inéditos de psicologia barata.
Ai, Jerónimo, por que razão não apresentaste o mesmo caderno de encargos ao laranjinha? Não te ocorreu que poderias tê-los posto em leilão, por um quem dá mais ao povo miúdo? A esquerda, Jerónimo, não existe, nem a direita. Terminologias passadas, o PS de agora – os PS’s de sempre! – prima pela ambidestria e pelo discurso encantatório. Diz-me, Jerónimo, que o Carlos Pereira, esse que maioria reclamou, de empecilhos vos tratando, diz-me que ele é um pateta, procurando destaque em bicos de pés. E o Costa, que maiorias renega, mas que reforços pede, para governar «mais e melhor», para «fazer o que ainda faz falta»? A que se resume tal «mais e melhor»? Se o «mais e melhor» é a esquerda – a que não existe – continuaria a ter-vos disponíveis para acordo. Se é à direita, pois lá estará o Rio, como esteve, e bem o sabes. Queimaste-te na vela que acendeste, Jerónimo. Ruim santo levaste a altar.
Quanto extraio, o PS não governa à esquerda, nem à direita – governa para si, para a vasta família. Portugal não é o objecto ou meta da governação socialista, é tão-só um tenro cenário.

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