Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Disfuncionalidades

Vamos falar de voluntariado…

Ideias

2016-12-16 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Por mera curiosidade procurámos em vários dicionários o vocábulo em causa, seu real significado, valia semântica e morfológica e temos de confessar a nossa desilusão por o não termos encontrado. Pelo que nos é lícito admitir e deduzir que ao tempo, e no nosso tempo, “disfuncionalidades” era coisa que não existia ou então algo de que se não falava nem se queria discutir por decoro, vergonha, medo ou quaisquer outras razões. Claro que não vamos acreditar nem pensar que isso das “disfuncionalidades”, em toda a sua extensão e compre-ensão, só tenha surgido com a democracia e a revolução de Abril, tanto mais que nos últimos tempos, a propósito e a despropósito, não falte quem fale, discuta e se debruce sobre “disfuncionalidades”, e com o maior dos à vontades a torto e a direito. O que se comprende já que é lícito a cada um poder ter, identificar e localizar “disfuncionalidades”, suas e alheias, diga-se, e situá-las onde bem o entender e quiser. E mesmo no Governo!...
Claro que tudo isto vem a propósito da polémica e discussão havida entre ilustres parlamentares, ou “comedores de dinheiros públicos” como também são conhecidos dada a sua oca ineficácia e inutilidade, polémica essa originada numa inter- venção “disfuncional” de um Secretário de Estado, um tal Mourinho, imputando e localizando uma outra qualquer “disfuncionalidade” num elemento da Oposição, o que foi de imediato considerado ofensivo e assumido como mais uma insólita e inadmisível “javardice” do Governo e da “Geringonça”. Certamente ofensivo porque usou um vocábulo por demais conhecido noutras áreas de actividade pessoal e íntima de qualquer homem como um determinado tipo de “disfunção”, com todos os seus efeitos perversos de “perda”, de “menor valia”, de incómodo, de frustação e até de vergonha, para qual, note-se, até se vem procurando remédio e solução. Um vocábulo que, embora não identificado por nós nos dicionários, é bem perceptível na sua extensão e compreensão num quadro de mera análise gramatical e morfológica da palavra em si, com o prefixo «des» ajoujado a «funcionalidade”, o que muito naturalmente envolve negação, ausência ou perda em termos de uma normal actividade, funcionamento e acção do órgão ou coisa a que respeita, afectando o seu usual exercício e função.
Enfim!... Funcionalidade do que quer que seja e em quemquer que seja, Governo, Oposição, homens e mulheres, seres vivos e coisas, dentro dum quadro de toda uma usual e normal formação, elaboração, desenvolvimento, afectação, destino, própria natureza e acção.
Disfuncionalidades que em parâmetros de “perda”, “negação” e “ausência” se têm vindo a verificar em todas as áreas, e também a nível governamental, com a saída de uns quantos secretários, assessores e mais elementos que, para terem funcionalidade, “fingiram” ou “simularam” habilitações, cursos, saberes, conhecimentos e valor que falsearam, assim iludindo um concurso, uma nomeação, uma escolha, perfilando-se e apresentando-se realmente como “disfuncionais” para os lugares que ocupavam, porque não portadores de reais aptidões e qualidades para uma natural e normal acção e função nos cargos ou serviços a que estavam adstritos, e consequentemente corporizando em si mesmos evidentes “disfuncionalidade”, carências ou negação para tal função.
Aliás, com o pulular de tantas universidades e escolas superiores, e tão grande, intenso e fecundo “fervor” formativo e técnico, custa-nos a aceitar que continue a haver indivíduos que, deixando-se levar pela ânsia de um lugar ou penacho, falsifiquem ou simulem um curso, uma preparação e um título para obterem “funcionalidades” e outras coisas mais, quando uma simples filiação partidária, um certo compadrio, algum empenho na “colagem de cartazes” e um mais ou menos “esconso” amiguismo se vêm configurando como suficientes para uma colocação, um “tacho”, um lugar na governação e no poder, pese embora toda a precariedade da política. Até porque, apesar de toda a preocupação da “geringonça” em acabar com os precários na administração pública e não só, todas as colocações e nomeações com aderências políticas e governamentais não deixam de ter os seus riscos com a natural evolução dos tempos, mesmo com cursos e diplomas atamancados, equivalências a preceito, aulas ao domingo ou por correspondência e professores “arregimentados”, conhecidos e amigos. E nem sequer referimos quaisquer casos concretos, porque conhecidos e sabidos de muitos...
Aliás temos para nós que isso das “disfuncionalidades”, salvo as resultantes de factores próprios, naturais, humanos ou explicáveis e compreensíveis pelo passar do tempo, tem as suas raízes mais profundas em toda uma muito actual e incontornável perda de valores, de consciência, de sentido das responsabilidades, em incontornáveis carências de verdade, honestidade, seriedade de vidas, e numa clara ausência e quebra de respeito e dignidade por nós próprios e pelos outros. O que, diga-se, de todo em todo se vêm espelhando nos media onde se vem retratando e dando nota de uma mentalidade e actividade cada vez mais criminosa e fraudulenta, aliás alargando-se a classes profissionais e pessoas que deviam ser tidas por responsáveis e insuspeitas.
Mas se a “geringonça”, como referiu o Costa, até vem sendo funcional com a ajuda e “mimos” da Catarininha e do Jerónimo, será sensato, inteligente e prudente pensar e prevenir eventuais “disfuncionalidades” governamentais, de natureza, amplitude e contornos vários, se as dificuldades aumentarem, o dinheiro faltar, o crédito falhar, a economia nâo crescer, o déficit se agravar e o povo abrir os olhos e deixar de acreditar.
Então, note-se, não haverá nenhum São Marcelo a quem recorrer, mesmo a prodigalizar “afectos”, nem um qualquer e eventual “viagra” que vença tais disfuncionalidades. O que é de todo possível, acreditem, mesmo que o “Diabo” não surja em pessoa, como o outro desde há uns tempos vem pressagiando e ameaçan- do.

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