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2014-03-06 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Os Direitos Humanos e o respeito pela dignidade humana são valores universais. A sua violação deve ser combatida e condenada. As ditaduras são más, quer sejam de esquerda ou de direita. Tal devia ser absolutamente consensual e inquestionável para qualquer democrata. No entanto, há partidos que não têm este entendimento.
Por isso, não percebo o Partido Comunista Português. Continuam fechados sobre si mesmos, isolados do mundo. Absolutamente dogmáticos.
Os exemplos são vários e repetem-se. Na Coreia do Norte temos uma ditadura comunista com sete décadas! Desde 1948 que o poder está reservado à família de Kim Il-sung que comete as maiores atrocidades e abusos de poder. Ninguém se esquece da recente execução do próprio tio do novo líder da Coreia do Norte. Há cenários dantescos de pobreza e fome extrema da população. Há relatos de mães que foram obrigadas a afogar os próprios filhos, prisioneiros que cavaram a própria sepultura, torturas e sevícias bárbaras e cruéis. Há crimes contra a humanidade ordenados por uma ditadura agressiva, opressiva e militarista, baseada no culto endeusado do líder.
Com base num relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), o Parlamento português, condenou os “crimes contra a Humanidade perpetrados pelo regime da Coreia do Norte”. Fê-lo contra o voto do Partido Comunista Português. Mais uma vez, o PCP recusou condenar ou simplesmente criticar um regime comunista.
Não se percebe que o PCP ignore um relatório do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, que demonstra que a “actuação da Coreia do Norte constitui evidentemente uma ameaça séria à paz nos limites das suas próprias fronteiras, como representa ameaça à segurança regional e internacional”, para além das “violações sistemáticas, duradouras e graves dos direitos humanos”, em que se destacam “as execuções públicas, violações, torturas e outras atrocidades apelidadas de ‘indizíveis’ que têm vindo a ser perpetradas”.
Mas esta tem sido a postura do PCP perante regimes ditatoriais comunistas. Como foi sempre cego o seguidismo relativamente à ditadura cubana ou ao regime da antiga União Soviética.
Perante o que se passa na Ucrânia, a posição do PCP é, mais uma vez, inaceitável.
A Ucrânia vivia com uma liderança déspota conduzida por Viktor Ianukovich, um presidente a viver numa propriedade com um campo de golfe, jardim zoológico privado e um palácio com torneiras banhadas a ouro, em pleno coração de um país destroçado pela miséria em que vive o seu povo.
A dimensão da pobreza e da falta de esperança do povo ucraniano atingiu proporções tais que motivaram tantos milhares de pessoas a oferecerem-se autenticamente para a morte na ‘Maidan’, a famosa Praça da Independência em Kiev, perante as forças militares do regime. Os rostos de um povo revoltado pela pobreza e determinado na defesa das suas convicções e do seu país marcam as impressionantes imagens do cenário de guerra e de morte na ‘Maidan’ que percorreram o mundo.
Foi esse povo de trabalhadores que venceu e convenceu os próprios militares a desistirem da defesa de um poder corrupto e destruidor do seu povo. No Parlamento ucraniano, os próprios membros do Partido das Regiões, até então no poder, viraram-se contra o até então seu presidente Viktor Ianukovich, agora refugiado na Rússia, país que decidiu afrontar o direito e a comunidade internacional, numa verdadeira invasão de território estrangeiro, como é a região ucraniana da Crimeia.
Pois bem, perante este cenário, o Partido Comunista Português logrou voltar a surpreender.
O PCP preferiu condenar aquilo que considerou ser o “autêntico golpe de Estado” que afirma estar a ser promovido pelos “sectores mais reaccionários da oligarquia ucraniana com o apoio do imperialismo” e da “brutal ingerência” dos EUA, União Europeia e NATO na situação interna da Ucrânia. Quanto à invasão russa do território ucraniano - e concretamente na região economicamente mais rica e produtiva da Ucrânia -, nem uma única palavra!
Neste caso, para o PCP, já não interessa de que lado e em que posição estão os trabalhadores e o povo.
Sejamos sérios. Não interessa o extremo político em que estão os ditadores, pois o efeito da opressão sobre as populações e os povos é o mesmo. O populismo, o nacionalismo, os extremismos e o maniqueísmo têm a mesma violência nos extremos de direita e de esquerda.
Aliás, não são raras as vezes que na União Europeia os extremismos de esquerda e de direita defendem as mesmas soluções. Note-se que a extrema-direita francesa defende, tal como o PCP em Portugal, a saída do euro. O PCP deveria explicar que a saída do euro implicaria um empobrecimento brutal dos portugueses (e nomeadamente os operários e trabalhadores por conta de outrem), em cima do que já sofremos.
Para os extremos, cada um luta por si e o “orgulhosamente sós” é que faz sentido.
Tenho a visão contrária. Acredito que cada um é mais forte quando partilha e dá as mãos. A União Europeia só terá paz e sucesso se o caminho que trilhar for de liberdade, partilha e solidariedade.

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