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Ebooks ou livros digitais

Costa e os ratos

Ebooks ou livros digitais

Voz às Bibliotecas

2019-10-24 às 06h00

Victor Pinho Victor Pinho

Foi com certa surpresa que ouvi um representante da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros afirmar, no decorrer das “Jornadas de Reflexão sobre as Bibliotecas e a Leitura Pública Digital - O Presente e o Futuro” realizadas pela Rede Intermunicipal de Bibliotecas de Leitura Pública do Cávado, no passado dia 20 de Setembro, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, que os livros digitais em Portugal não se vendem, pois não há mercado para eles.
Pensávamos nós que, com o maior número de livros electrónicos disponíveis, quer em novas, quer em edições antigas, até de livros esgotados, o mercado absorvia esses livros e permaneciam em forte concorrência com o livro tradicional.

Todos nós sabemos que os livros digitais apresentam algumas vantagens. A sua portabilidade, isto é, poderem ser facilmente transportados em cd-roms, pen-drives e cartões de memória e ser rapidamente transmitidos através da Internet. Pesam menos e podemos andar, simultaneamente, com muitos ebooks. Outra vantagem é o preço, pois podem ficar por um valor até 80% menor do que um livro impresso, quando não for gratuito. Mas, um dos maiores atractivos dos livros digitais é o facto de já existirem softwares capazes de os lerem, em tempo real e permitirem a criação de audio-books.
Existem inúmeras livrarias online e bibliotecas digitais que dão acesso fácil e rápido ao livro e as plataformas disponiblizadas por algumas editoras permitem que, qualquer pessoa, faça a autopublicação em formato digital dos seus livros e textos originais.

A criação da Biblioteca Nacional Digital, que disponibiliza milhares de documentos, e uma quantidade razoável de livros digitais que o Plano Nacional de Leitura propõe para leitura são aspectos positivos a considerar nesta autêntica revolução. Falta, todavia, um plano estratégico que defina linhas orientadoras e objectivos a atingir, bem como investimentos a fazer.
Alguns especialistas consideram que os ebooks são um forte incentivo à leitura, necessitando as bibliotecas de outra organização e capacidade de oferta. E alertam: Se nada se alterar, as crianças de hoje quando chegarem a adultos, ainda lerão menos do que os seus pais. Em 2014, escrevia Daniel Sampaio na sua crónica “Ler nos dias de hoje” no jornal “Público”:
“Se o paradigma mudou, a promoção da leitura, crucial para o desenvolvimento do cérebro e essencial para a qualificação dos portugueses, tem de mudar também. As edições deveriam ser mais direccionadas para a leitura digital, sobretudo para os tablets – o suporte do futuro – e poderiam conter entrevistas com o autor e imagens relacionadas com o texto. As acções nas escolas deveriam proporcionar leitura em computador de trechos de obras de qualidade, enquanto as redes sociais seriam utilizadas em comentários partilhados de leituras acessíveis em formato digital. As livrarias e as bibliotecas precisa- riam de outra organização, onde não faltaria a leitura conjunta em computador e o apoio ao preço fixo do livro.
A continuar sem mudar nada, os filhos de hoje, quando chegarem a adultos, ainda lerão menos do que os seus pais.”

Recentemente, o referido jornal diário, na sua edição de 26 de Fevereiro deste ano, num artigo de Cláudia Carvalho, referia que ler em papel era mais eficaz do que ler em formato digital, pois estamos mais calmos, mais concentrados. Referia-se a um estudo da Universidade de Valência em que foram analisadas as respostas de mais de 170 mil pessoas, tendo-se chegado à conclusão de que existe uma “superioridade do papel”, pois quando se lê em papel a compreensão do que é lido é maior do que quando é lido em ecrãs. E isto é sobretudo flagrante em crianças. O investigador Ladislao Salmerón explicou ao referido jornal que uma das hipóteses para justificar que a compreensão digital seja menor em crianças é a “associação destes dispositivos a interacções curtas e recompensas imediatas”. Por sua vez, isto torna difícil que os jovens se consigam concentrar na leitura, por não se “desligarem” daquilo que esperam quando estão diante de um ecrã.

Mas, para que o mercado dos ebooks funcione, torna-se necessário adaptar as Bibliotecas Municipais e as Bibliotecas Escolares à nova realidade, reorganizando-as e disponibilizando livros digitais e suportes de leitura, como os tablets, que permitam um acesso fácil e rápido.
De um forma ou de outra, seja em que suporte for, o que é necessário é ler, ler bem e ler muito.
Na verdade, como dizia o meu amigo Manuel António Pina, autor, entre outros, do livro “O País das Pessoas de Pernas para o Ar”, nós somos os livros que lemos e os livros que ainda queremos ler.

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