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Educação e renovação no regresso de férias

Uma Justiça que é tão cega

Educação e renovação no regresso de férias

Voz aos Escritores

2019-09-06 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

No regresso de férias, dedicamos hoje estas linhas ao tema da educação, especialmente à educação dos jovens na justiça e na paz. Há, de facto, uma relação profunda entre educação e transformação, e é bom começar mais um ano escolar com o desejo de uma autêntica renovação.
Refletir na educação é um convite à procura daquilo que é essencial na vida, para nos podermos manter em constante transformação e renovação.
Convido-vos, assim, a olhar para o novo ano escolar com uma atitude confiante. É verdade que, nos últimos tempos, tem crescido o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas.
No caso português, o despacho sobre a identidade de género, que agitou a classe política neste verão, será tema interessante para discussão na comunidade educativa no início deste ano letivo. Este despacho, em nosso humilde entender, apesar de considerarmos a questão de identidade de género delicada, apenas realça o desejo de todos na defesa de uma escola inclusiva, que tenha respostas para todos e cada um dos seus alunos. Assim, o mais importante é permitir às escolas darem respostas adequadas às realidades existentes, garantirem que os alunos se sintam bem acolhidos e alcancem excelentes resultados pessoais, sociais e académicos. Contudo, educar na paz e na justiça exige o envolvimento dos próprios aprendizes na sua formação e renovação. Eles querem uma sociedade mais diversa e inclusiva, sem discriminação de género, étnica ou de orientação sexual. E onde se pode aprender a respeitar a individualidade de cada um? Onde se aprende quase tudo: na escola. As escolas, os seus diretores e os seus professores assumem a grande responsabilidade de educar e ensinar os seus alunos, mas esta é uma responsabilidade partilhada com os pais e com as famílias, uma vez que são estes os principais responsáveis pela educação dos seus filhos. Assim, para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos na solidariedade, na colaboração, sermos ativos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões locais, nacionais e internacionais. É preciso que a educação e a renovação passem pela importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação, de desenvolvimento e de resolução dos conflitos.
Os conflitos armados são alimentados pelo tráfico das armas, pela ambição pessoal e de grupo dos líderes políticos mundiais, pelas tensões étnicas, pelo jogo amoral das nações interessadas nas matérias-primas em que muitos desses países são ricos. Mas não só. São alimentados igualmente pela corrupção, pelo nepotismo e pela exploração do trabalho infantil.
E quando falamos de regresso de férias, a questão do trabalho infantil toca-nos profundamente. É de lamentar que a mão de obra infantil ainda persista no século XXI. Parafraseando Mia Couto, perguntamos: pode chamar-se criança a uma criatura que lavra a terra, corta a lenha, carrega água e, no fim do dia, já não tem alma para brincar? Não, certamente que não. Quando uma criança trabalha não está perdendo só a infância, mas também os seus sonhos, a sua felicidade, o seu futuro e a sua paz.
A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça.
Inspirada nessa discussão, a adolescente Laisnanda da Silva de Sousa, de 17 anos, escreveu o seguinte poema: Criança Inocente
Não me conformo com o choro
Daquela inocente criança
Que trabalha o dia todo,
Que já perdeu a esperança.
Que não estuda e só trabalha
Que não sabe ler nem escrever
Que já não tem mais futuro
Que se esqueceu de viver.[…]
E o futuro desta criança está em nossas mãos
Depende de cada um de nós
Quem será este cidadão.

Não tentemos desqualificar o problema colocando o trabalho infantil no mesmo plano da criança que ajuda os seus pais fazendo a sua cama, guardando os seus brinquedos ou limpando o seu quarto. Isso faz parte do seu crescimento. Estamos a falar de escravidão, de trabalhos de longa duração que visam o lucro, e que no caso de crianças é ainda pior porque lhes roubam a infância e impedem-nas de estudar. Estamos a falar de trabalhos pesados, insalubres, perigosos, para além, é claro, das atividades ilícitas que também utilizam crianças, como o tráfico de drogas e a exploração sexual. São milhões de crianças por esse mundo fora que trabalham em diversos setores: na indústria têxtil, em minas de carvão, lavouras de cacau, plantações de algodão, entre outros.
Mas engana-se quem pensa que só a agricultura e pequenos negócios incorrem nesse tipo de transgressão. Multinacionais de renome já foram e são com frequência apanhadas em flagrante utilizando mão de obra infantil. O problema não se restringe apenas aos países subdesenvolvidos. Em países desenvolvidos as crianças de famílias com baixos rendimentos, principalmente filhos de imigrantes, são as mais vulneráveis. Em certos casos, os próprios pais empurram as crianças para o trabalho infantil a fim de contribuírem para as despesas da casa. Algumas dessas multinacionais são donas de marcas famosas. Há milhões de crianças em situação de trabalho infantil. A informalidade e a precaridade dessas atividades permitem que esses setores tenham facilidade na obtenção da mão de obra de crianças e pouco receio de punições. É precisamente neste momento que algo em nós se faz luz: talvez a existência de lugares completamente esquecidos pelo poder público e que nos remetem para tempos bem longínquos, como podemos ler numa quadra de António Aleixo, possam explicar esta e outras situações obscuras:

Ao ver um garotito esfarrapado Brincando numa rua da cidade, Senti a nostalgia do passado, Pensando que já fui daquela idade.

Pois bem, o facto é que estamos em pleno século XXI e se é possível explicar a exploração da mão de obra infantil pela facilidade em setores informais da economia, como explicar que o mesmo tipo de crime ocorra em grandes companhias, com grandes marcas? Não deveriam ter o hábito de fiscalizar os seus fornecedores dentro e fora do país? Não se informam sobre as condições políticas e sociais dos países em que instalam as suas fábricas? A verdade é que a mão de obra barata, e melhor ainda se for gratuita, pressupõe aumento nos lucros. É isso que no final importa, e ao se aproveitarem da fragilidade social dessas crianças, contribuem para um ciclo perverso de pobreza que passa de geração em geração. Por isso, existem as grandes desigualdades e a pobreza a alastrar a olhos vistos como nos diz Bertolt Brech em Privatizado:
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.

Mas se o comportamento do mercado é a única coisa que sensibiliza grandes companhias que não deveriam fazer uso de tais meios, nada como trocar de marcas ou parar de consumir os produtos. Seremos capazes? Este é um desafio que se impõe: educar as crianças, formar os jovens e sensibilizar a opinião pública para a urgência em abrir janelas em muros até agora completamente fechados. Se cada muro tivesse uma janela, por qualquer lugar poderíamos ver as estrelas a iluminar o mundo e a derrubar os muros que, muitas vezes, nos sufocam. Bastaria, talvez, criar uma janela onde não existe, fazer um poema como no seguinte de Mário Quintana e respeitar o tempo, o afeto e os sonhos de todos:

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.





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