Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Ensaio sobre a verdade

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias Políticas

2018-11-20 às 06h00

Pedro Sousa

Hoje, mais do que nunca, são cada vez mais as pessoas que parecem disponíveis para aceitar, que parecem conceder, com mais ou menos resistência, em conviver com os diferentes "autoritarismos" que vão polvilhando o cenário político mundial. Este facto, que pode parecer de somenos, diz muito da frustração, do desencanto e da revolta que a sociedade, que o povo tem para com a política.

É neste contexto que entendi falar sobre a verdade e sobre o papel que os líderes, sejam eles quem forem, tem a este respeito.

Como ponto de partida, dizer que para devolver à política a credibilidade que ela tem de ter, é absolutamente necessário que os liderem falem sempre a verdade. Ademais, há um outro lado que tem, também, um papel a cumprir. O papel de escrutínio, de controlo, de exigência crítica e activa e esse cabe, obviamente, aos cidadãos.

Como objecto de análise, atentemos naquilo que se tem passado nos últimos dias.

Merkel e Macron parecem, por estes dias, anunciar ao mundo o retorno do velho eixo franco-alemão, aparentando uma proximidade só comparável à de Trump com os seus, tão insuportáveis quanto permanentes, “tweets”.

Do presente regressamos ao passado e recordamos o fim da I Grande Guerra, as cicatrizes das trincheiras, o terror do nacionalismo ou aquela distopia avassaladora a que a técnica e a mecanização do combate nos levaram.

O romance entre Merkel e Macron, surgido da cumplicidade do aniversário do fim da I Grande Guerra, foi reforçado em Estrasburgo com um discurso retumbante em que Angela Merkel, assumindo uma autocrítica que poucas vezes se lhe viu, apontou “...a tolerância como a verdadeira alma da Europa”. O anúncio de um exército comum foi a pedra de toque da cumplicidade Berlim/Paris, num período em que o mundo transatlântico parece, “a contrariu”, afastar-se da Europa.

Face aos muitos egoísmos nacionais que vão marcando a Europa e o Mundo, Merkel vincou que “...apenas a tolerância nos permite entender os anseios, os problemas e as necessidades dos outros, tal como somos capazes de ver e entender as nossas”. E reforçou, assinalando que “...no cerne de tudo está a solidariedade, que é o mecanismo essencial para que uma comunidade, como a União Europeia, funcione”. Merkel disse, ainda, que “...depois de se confrontar com a crise da dívida, com o horror do terrorismo, com os movimentos de refugiados, com conflitos bélicos em países que estão próximos da nossa Europa segura, com os enormes e prementes desafios que advêm das mudanças climáticas ou da digitalização que nos domina, é impossível continuarmos a agir sozinhos”.

A verdade, é que ao contrário de tudo que Merkel e Macron apregoaram por estes dias, os últimos dias foram, novamente, marcados pelo Brexit que, diga-se, simboliza exactamente o oposto.
O Brexit, novamente na berlinda, é bem demonstrativo de para onde nos levam, por regra, os egoísmos nacionais e confirma, como uma luva, a frase profética de Philipp Blom: “Na política, grandes promessas são quase sempre falsas”.

Talvez por isso, Theresa May disse: “...a liderança é sobre tomar as decisões certas, não as fáceis”. Apesar do seu duro impacto com a realidade, em pleno salve-se quem puder dos Tories, May sabe muito bem que o acordo alcançado é o único possível, não agradando, ainda assim, a ninguém.

A mensagem de Merkel foi marcante pela força moral; a de Theresa May pela total ausência da necessária ancoragem das palavras à realidade. E, apesar de tudo, podem, ambas as mensagens, ser colocadas em terreno político objetivo, sendo que apenas uma delas é franca e verdadeira, respeitando o falar verdade que é essencial para a democracia.

Ao outro lado, à cidadania, cabe o papel de escrutínio, de controlo, de exigência crítica e activa. É essa outra parte que completa a democracia e ela é, também e infelizmente, esquecida demasiadas vezes.

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