Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

Entomofagia: Qual o seu “Yuck factor”?

Costa e os ratos

Entomofagia: Qual o seu “Yuck factor”?

Ensino

2019-10-23 às 06h00

Júlio César Lopes Júlio César Lopes

Esse da próxima vez que for ao seu restaurante preferido lhe propuserem para o almoço umas “almôndegas de tenebrios” ou se ao chegar ao ginásio lhe oferecerem uma barra de cereais com proteína de grilos?
Esse dia pode estar mais perto do que pensamos…
Com o crescente aumento da população mundial (as previsões apontam para cerca de 9000 milhões em 2050) o aumento na procura de alimentos, nomeadamente em fontes de proteínas de origem animal também cresce de forma significativa (seja para consumo humano, rações para aquacultura e para animais de companhia).
Numa época em que muito se fala sobre a “pegada de carbono” associada à produção de alimentos, é imperativo procurar formas alternativas e sustentáveis para a sua obtenção sendo a produção de insetos (os chamados “Six-Legged Livestock” da moderna zootecnia) um recurso cada vez mais interessante no contexto mundial.

A entomofagia é praticada em muitos países do mundo, predominantemente na Ásia, África e América Latina. Os insetos complementam a dieta de aproximadamente 2000 milhões de pessoas e tem sido parte da dieta humana desde tempos ancestrais.
Para a sociedade ocidental apesar do consumo de insetos como alimento poder parecer um tanto estranho e até motivo de repulsa, sua utilização como componente em rações para animais já se torna mais aceitável (segundo estudos de aceitação pelos consumidores realizados pelo grupo ProteoInsect). No entanto, a nível mundial, estão identificadas mais de 1900 espécies de insetos comestíveis seja in natura ou como componente de outros alimentos, sendo a sua grande maioria proveniente da captura na natureza.
De forma a conseguir a sustentabilidade dessa utilização e, segundo a recomendação da FAO, é necessário o desenvolvimento de técnicas de produção que garantam a segurança do consumidor ao mesmo tempo que permita sua obtenção de forma rentável.

Mas… porque insetos?
A utilização de insetos como alimentos (animal ou humano) apresenta vantagens ambientais: elevada eficiência de conversão alimentar (2 kg de alimento / kg de insetos em comparação com 8 kg de alimento / kg de carne bovina), os insetos produzem menos gases de efeito de estufa, utilizam muito menos água que a pecuária convencional, exigem menor área de produção, podem utilizar restos orgânicos o que se torna interessante no conceito de economia circular; são benéficos à saúde: são fontes de nutrientes e proteínas de alta qualidade (quando comparados à carne bovina e ao pescado), são particularmente importantes como suple- mento alimentar pois a maioria das espécies tem alto teor de ácidos gordos (comparáveis ao pescado), são ricos em fibras e micronutrientes como cobre, ferro, magnésio, manganês, fósforo, selénio e zinco, são considerados animais de baixo risco em relação a zoonoses (doenças transmitidas de animais para humanos); podem constituir um benefício social: a criação de insetos pode ser uma oportunidade de desenvolvimento de ações empreendedoras sejam em economias desenvolvidas, em transição ou em desenvolvimento, o processamento de insetos para a alimentação humana ou animal pode ser feito com relativa facilidade sendo algumas espécies consumidas inteiras, processadas em pasta ou moídos como farinha, além disso, suas proteínas podem ser extraídas.

Cada vez mais o potencial dos insetos como alimento será tema de estudo e discussão, no entanto, a legislação varia entre os diferentes estados membros quanto à sua utilização (em Portugal não está autorizada a utilização para alimentação humana) estando autorizada a produção para utilização em rações para aquacultura e de animais de companhia.
Até ao momento apenas sete espécies estão permitidas: os “besouros da farinha” – Tenebrio molitor e Alphitobius diaperinus, a Mosca-doméstica – Musca domestica e a Mosca-soldado-negro – Hermetia illucens, o Grilo-domestico – Acheta domesticus, o Grilo-raiado – Gryllodes sigillatus e o Grilo-do-campo – Gryllus assimilis.
Hoje, dia 23 de outubro comemora-se o Dia Mundial do Inseto Comestível (FAO) sendo a data uma forma de divulgar as potencialidades desses animais em serem as fontes proteicas do futuro (provavelmente bem próximo…).
Aproveitando a data, seria uma boa altura para a academia, os legisladores, os oficiais em segurança alimentar, a investigação em ciência animal e a comunidade empresarial trabalharem em conjunto de forma a garantir o sucesso de um novo setor (apesar do uso antigo) com elevado potencial de evolução e rentabilidade.

Deixa o teu comentário

Últimas Ensino

04 Dezembro 2019

Quanto sabemos sobre o solo?

20 Novembro 2019

Quem fez o trabalho de casa?

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.