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Ideias

2018-04-12 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Na semana passada, integrei uma delegação do Parlamento Europeu numa missão à Moldávia. Reunimos com o presidente da República, o primeiro-ministro e vários ministros, líderes de todos os partidos e organizações da sociedade civil. Visitamos projetos que a União Europeia financia, apesar de a Moldávia não fazer parte da UE. A Moldávia é o país mais pobre da Europa, com reformas rurais na ordem dos 50 euros mensais e salários médios inferiores a 300 euros. Percebemos melhor a realidade quando a vemos, tocamos e sentimos.
A visita permitiu fazer vários paralelismos com Portugal - António Costa e a geringonça, o apoio à banca e o Portugal anterior à UE - e confirmar a estratégia de Putin.

O Governo que saiu das eleições de 2014 na Moldávia é liderado pelo Partido Democrata, que integra a família socialista europeia, e que ficou em 4º lugar nessas eleições, com 15,8% dos votos. Em primeiro lugar, com 20,5%, ficaram os que se intitulam socialistas, mas na verdade são comunistas e pró-russos. Os partidos pró-europeus fizeram uma coligação de governação, depois de, em conjunto, terem ganho com uma escassa maioria.
Quando comparei os números dos mandatos eleitos para o Parlamento com os que existem neste momento, afirmei que os documentos que nos tinham sido entregues estariam errados! É que o Partido Democrata tinha eleito 19 deputados, mas estava agora com 42! Mas os números estavam certos: depois de eleitos, deputados de todos os partidos pediram a transferência para o Partido Democrata.
Diz-se que o Partido Democrata controla a justiça e os transfugas cederam à intimidação. O Partido Democrata nega e afirma que foram os deputados que se ofereceram para mudar e que, até agora, já rejeitaram muitas ofertas de transferência.
É uma geringonça ainda mais criativa que a portuguesa. Afinal há quem seja ainda mais habilidoso que António Costa.

O mesmo fenómeno também se está a verificar no poder local. O Partido Democrata, liderado por um oligarca - na verdade o único oligarca da Moldávia -, já triplicou o número de autarcas iniciais, depois das transferências pós-eleitorais.
A Moldávia terá eleições legislativas em novembro deste ano, que ditarão o futuro do país e onde os partidos pró-russos parecem ter uma vantagem nas sondagens. O presidente da República, Igor Dodon, é pró-russo e está em permanente conflito com o Governo. A língua oficial é o romeno, mas após a nossa visita o presidente twittou em russo!
A Moldávia tem tropas russas no seu território. A região da Transnístria, um pequeno território que faz fronteira com a Ucrânia, intitula-se independente e tem o apoio russo. Mais uma zona onde Putin exerce bullying. Com a ajuda de Putin, os habitantes da Transnístria têm petróleo mais barato, energia mais barata e melhores reformas que os restantes moldavos. Todos eles falam russo. A partir dos canais de televisão russos, Putin entra todos os dias na casa dos moldavos e faz propaganda, que vai obviamente intensificar-se até às eleições.

Na visita a uma das muitas escolas em que a União Europeia financia o aquecimento a partir da biomassa, recordei o Portugal da minha infância e o frio da minha escola. Tal como há mais de 40 anos acontecia no Portugal profundo, percorri estradas em terra, vi água a ser transportada a partir de poços comuns e os animais como meio de transporte.
Em 2015, uma fraude de mil milhões de euros em três bancos moldavos levou o país e o setor bancário a uma grave crise, de que só agora começaram a sair. As investigações continuam, mas o dinheiro desapareceu! O Estado assumiu as despesas equivalentes a mais de 12% do PIB moldavo. Salvaguardadas as devidas distâncias, lembrei-me dos mais de 17 mil milhões de euros - 9,1% do PIB português - que os contribuintes portugueses pagaram, desde 2007, para salvar o sistema bancário.

A Moldávia, enquanto país mais pobre da Europa, precisa e merece o nosso apoio. A UE tem a obrigação de ser solidária, para promover a paz e o crescimento, e também pela sua própria segurança. A Moldávia faz fronteira com a Roménia, ou seja, com a UE. Precisamos que os nossos vizinhos tenham paz, segurança e estabilidade.
A visita não me tranquilizou. Senti que os pró-russos podem ganhar as eleições legislativas de novembro, o que seria um retrocesso para a Moldávia e, em simultâneo, constituiria um foco de maior instabilidade para a região e uma ameaça à própria UE. Há quem ainda não tenha percebido, mas estamos todos ligados.

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