Correio do Minho

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Eu, Fausto.

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Conta o Leitor

2019-08-21 às 06h00

Escritor Escritor

Margarida Cruz

Os dias são mais curtos em Cape Town, a viagem da minha vida.Curtos, porque as emoções nos consomem e as horas desvalorizam no tempo. Chego solitária e otimista, nunca saltei por pequenas aventuras e esta não tem tamanho de tão enorme que conseguiu ser. Não houve tempo definido na minha mente, tempo que definisse o tempo. No meu entender de tempo. Nas minhas intuições, apenas saí zona de conforto que me abrigava há eternidades, apenas quis viajar e acabei a viver um romance, o mais provável e mal interpretado romance. Tão mal interpretado pelo mesmo motivo de tão provável, é certo que muitas das improbabilidades estão em nós e não num facto em si, são criadas e não sendo físicas, mostram-se como paranoias. Foi um amor sem palavras ditas, apenas escritas. Talvez por isto ser uma história, cabe a cada imaginação os diálogos e as mais diferentes vozes. Para toda a verdade ser exposta, tudo esteve a nosso favor durante toda a minha presença em África, ambos nos cruzamos em todos os lugares e por se achar tudo coincidência, não nos vimos. Não é o acaso que nos leva aos montes mais altos, aos oceanos mais transparentes, aos melhores espetáculos e a ele. É a probabilidade cem por cento presente em exatamente tudo.
E a ser provável, encontro-me num sonho vivido intensamente, com um artista de emoções, no maior palco da vida. Rei dos monólogos, alguém que se faz ouvir. O teatro foi o meu primeiro foco quando me instalei na minha casa em Cape Town, o táxi que me trouxe era forrado a papéis publicitários, entre eles, o anúncio do que seria a próxima peça do Fausto, a minha primeira. Lembro-me do meu falso desinteresse ter protagonizado os meus primeiros momentos como público naquele monólogo. Lembro-me de desejar ouvir aquilo para o resto da vida, lembro-me de comparar os meus olhos a oceanos, as imensas lágrimas salgadas sem nenhum aparente motivo. Agora todos.
Os dias foram passando e tentei habituar-me a alguma rotina que pensava ter, procurava em cada canto algo familiar que me fizesse sentir em casa. A praia mais próxima foi como uma máquina do tempo, que me levou até aos meus e que me fez sentir a matar saudades, ainda que sozinha e distante dos mesmos. Sentada na areia, para além da minha visão ser o mar e o céu aparecia mais alguém, esse preciso alguém. Provável? Cem por cento. Foi pouco o diálogo que nasceu dali, mas foi claro ao dar a entender que a minha presença no seu espetáculo foi notada, quem sabe sentida.
Era frio, cheio de conhecimento, sempre com respostas e a deixar-me sem as minhas, errava em tudo para quem queria encantar, e encantava. Deixava-me sozinha com quilos de pensamentos e ligeiros sentimentos de ora tristeza ora incompreensão, nada muito nítido. Era sabedor que não agia da mais correta forma e que talvez pudesse perder algo que nunca teve. Era mútuo o que possuíamos um do outro, ainda assim, tive-me nele e ele não me teve a mim.
E com os seres inteligentes que erram, vem o perdão ao natural como se de natureza se tratasse: Agora, a ouvir uma só voz, a voz do meu protagonista. Por favor, um aplauso:

Eu, Fausto.
Chove torrencialmente cá dentro, não há tempo que espere pelo mesmo que passou. Não há hora que anuncie o último minuto, eu Fausto, perdi-a para o mar.
Não é ser vidente, não creio nas intuições e pensar que a sorte vive em mim é uma falácia. Algo como tudo perde o sentido agora. O sentido do agora é o leve perdão a ser entregue, leve. A intensidade merece a camuflagem de alguém que, como eu Fausto, não cede ao que mais lhe atrai. Valorizo a leveza das atitudes, notáveis atitudes, críticos momentos. Escrevo e a folha acaba num palco, o meu palco, a minha vida, entendido por mim e motivo desta hora.
O gelo dos nossos copos derretera e algo não mais sólido ocupa o lugar do que antes foi uma pedra, o arrependimento soa ao mesmo e talvez música que se ia repetindo se assemelhasse á oportunidade de manobrar a máquina do tempo.
Eu Fausto, agora sonho.
No barulho procuro o significado do silencio, encontro a razão de que algo é impossível quando procuramos o oposto de onde estamos. No meu corpo exausto, na falsa mente. A morrer estando vivo, no meu corpo exausto. No mesmo existo, na mesma mente. Imagino-te. Sem maldade na rejeição, sem intenção de rejeitar. Repetindo friamente esta arte de conquista.
Eu Fausto, imagino-te.
Sem saber, dir-me-ás tu com que mãos carrego de tudo um pouco. Com que espaço crio limites e de que sentimentos falas que são teus. Sem perceber, sinto o que ilustras e vejo-me num artista que desconheço. Voltarei, quando me permitir ser um pouco do muito que procuras. Voltar, ainda aqui. Sem mover-me, afastar-me nas palavras. Que me sustentam.

Seremos, continuaremos.
Paisagistas, autores das vistas que iludem os céticos.
Céticos por vontade, sabedores do inexistente.
Seremos, continuaremos.
Num palco, numa plateia e não ser nada.
Céticos iludidos.
Seremos, continuaremos.

Eu, agora ninguém.

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