Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Eu minto, tu mentes, ele mente ...

Regionalização e representação territorial

Ideias

2014-05-02 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Conjugando o verbo “mentir” em todas as suas flexões, fácil e forçosamente se conclui que não é tão intransitivo como o apontam. Na verdade se “prima facie” não há complemento directo que o qualifique e caracterize como tal, a grande, triste e incontornável realidade é que, pelo sujeito, o verbo “mentir” se vem afirmando com tal veemência, generalização e abrangência, intervindo e “complementando” de uma forma tão directa e recorrente a nossa vida, que não será de todo obsceno, extravagante ou mera estultícia que o apodemos de “transitivo”.

Porquanto é de todo incontornável que vem “transitando” de pessoa para pessoa, de geração em geração e ao longo dos anos, e, diga-se, em todos os seus tempos e flexões, sendo aliás “conjugado” frequentemente por muitas e conhecidas figuras das áreas da política e governação.
De facto é cada vez mais difícil haver alguém que, assumindo a primeira pessoa gramatical
(singular ou plural), confesse ou reconheça algo de que não se orgulhe ou envolva perversas autoria e responsabilidades, e tenha a coragem de dizer “eu minto”, “eu menti” ou um “nós mentimos” quando directamente confrontado com afirmações ou imputações mais ou menos lesivas ou dúbias.

Será tudo, reconheça-se, um problema de ausência ou deficiência de formação moral, consciência, lisura, personalidade, carácter, seriedade e de amor à verdade, o que até é muito preocupante face a toda a sua usual e comum generalidade, mas é de todo incontornável que se apresenta como muito mais habitual e geral o uso das segunda e terceira pessoas, logo e prontamente se apontando e indicando outrem como autor do facto, e como mentiroso o parceiro ou o interlocutor que se enfrenta e se quer contrariar.

Lisura, formação, personalidade, carácter, seriedade e amor à verdade que vêm rareando na sociedade, mormente em certos sectores, pelo que cada vez mais se compreende e se explica sobressair na sua conju- gação a terceira pessoa, com um assertivo “ele” ou “eles” mente, mentem, mentiu ou mentiram. O que se nos afigura como algo de endémico ... e até terrivelmente epidémico porque de todo recorrente.

Aliás na política a mentira e o embuste surgem de mãos dadas e com demasiada frequência, pontificando nas campanhas, comícios e programas eleitorais onde têm vindo a vingar e a sobressair a técnica da aldrabice, a arte do “engano”, o logro “engenhoso” que se tece e a “promessa” fátua que se bolça, e tudo, sublinhe-se, com a mais aparente e fingida seriedade e uma cara “estanhada” formatada em sorrisos. Num desdobrar de malabarismos em ordem a alcançar-se o poder e a certeza de colocação de amigos e confrades no aparelho do Estado, respondendo assim à vontade dos partidos.

Portugal, aliás, vem vivendo desde há anos num mundo de mentiras, logros e embustes sendo até um joguete nas mãos das “marionetas” dos partidos, que passam o tempo a acusarem-se mutuamente de mentirem, faltarem às promessas e enganarem, quando a verdade é que o grande enganado e burlado vem sendo o povo.

E desde Abril de 1974, diga-se, já que as razões ou causas que o geraram e formataram não serão assim tão reais e lineares quanto muitos o afirmam, porquanto muito bem camufladas até no próprio camuflado das fardas dos militares que o marcaram, com o povo a ser continuadamente massacrado com impostos e cortes nos seus salários e pensões, assistindo à derrocada da economia e ao sumir de valências nas justiça e saúde e enfrentando reestruturações que agravam isolamentos e trazem incomodidade, insegurança e um crescente mal estar.

Continuadamente a ser “levado” pelas palavras e promessas dos governantes e os demais políticos, mesmo os da oposição, que tanto fazem recordar a célebre frase de Pimenta Machado de que “o que hoje é verdade amanhã é mentira”.

Aliás uma realidade que não é apenas do futebol e vem vingando e prepondera sobretudo na política, no governo e na oposição com o primeiro a perder-se em silêncios comprometedores, indiscreções saloias e inoportunas, meias palavras e questionáveis e duvidosos projectos, e a oposição, de uma forma recorrente e insistentemente, a verbalizar falhas, erros e mentiras governamentais e a não assumir os seus próprios erros e mentiras, sempre expectantes em alcançar o poder para de novo “navegar” nos usuais embustes e mentiras que agora tão aberta e claramente condenam.

Entretanto, o país continua a sofrer e a não ver qualquer sinal indicativo de uma mudança séria, verdadeira e profícua, que sobretudo ponha termo às usuais mordomias dos políticos, às inutilidades, às farsas democráticas, aos dispêndios dispensáveis e inócuos e ao que vem pesando na administração pública e no governo, o que seria benéfico para quem já suporta e enfrenta uma administração autárquica muito onerosa, transformada numa “máquina política” enredada em quadros, agentes e burocracias.

Mas tudo, sublinhe-se, está nas mãos do governo e oposição que têm de tomar consciência das realidades do país e necessidade de toda uma mudança, tendo coragem de a assumir e de a processar no oneroso “embrulho” que é o aparelho do Estado.

Eliminando-se serviços, fundações, direcções, organismos, empresas públicas, altas autoridades, entidades reguladoras, comissões, etc., etc., que sejam de manifesta inutilidade e dispensáveis, até porque muitos não são mais do que meros lugares de aconchego para amigos e confrades, e acabando-se de vez com a “classe dos assessores” e o recurso aos pareceres juríricos de gabinetes estranhos aos quadros e administração pública, que tanto “engrossam” os encargos do Estado.

Este governo, que, como os anteriores, também sabe conjugar em todos os tempos e flexões o verbo “mentir”, não pode quedar-se pela eliminação apenas dos governos civis, que então aplaudimos, e tem de avançar, em conjunto com a oposição, para uma reestruturação e reforma real do Estado que leve a uma diminuição da despesa pública nas autarquias e nos serviços gerais da administração pública, reduzindo o número dos que vivem e vegetam à sua custa.

Naturalmente cortando no número de deputados, restringindo gastos e mordomias nos funcionamentos da AR e do TC, limitando as viagens, idas e presenças no estrangeiro e órgãos das CEE, diminuindo os quadros de pessoal adstrito ao PR e suas casas, ao governo, aos ministérios e “democratizando” e “encurtando” a sua frota automóvel, tomando-se consciência da pequenez do país que somos e da dureza dos sacrifícios que se vêm fazendo.

E isto por mais que custe aos políticos e seus afins, que não podem continuar anos e anos a “mamar” e a viver em “gaiolas douradas”, aqui ou em Bruxelas, como decerto irá acontecer e custar aos “saneados” pelo Seguro, como o Vital Moreira, a Edite Estrela e alguns outros. E “escapou”, imagine-se porquê, a famosa Ana Gomes!...

São ainda muitos a conjugar o verbo “mentir”, enredando-se no embuste e na mentira com palavras, actos e gestos, mas se o “eu minto” acontece às vezes tal como o “tu mentes”, a triste e indisfarçável realidade do país é que “ele” e “eles” mentem e mentiram sempre, iludindo e enganando tudo e todos. No presente, passado e de certo também no futuro, acreditem em nós que não somos político nem vivemos da política.

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