Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Exortação aos pobres

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2018-10-19 às 06h00

José Manuel Cruz

Sabei, queridos irmãos, companheiros de fortuna e pesares, que no nosso bem-amado país se conjugam entusiasmos a uma escala nunca vista e que muito em breve não passaremos de singular nota de rodapé em capítulo vencido da história.
Fundação várias vezes milionária e altas esferas da nação, com sua excelência presidencial à cabeça, assim entendem que nenhum esforço é vão em santíssima guerra contra a pobreza, condição que nos aflige a nós, e que a eles envergonha, um dia por outro, desencontrado, mas de modo perdurante nas suas ilustres e contristadas memórias.
Replicar-me-eis que debalde prenuncio a extinção de tamanho inferno; acrescereis que se bocas enchem, os notáveis, com as angústias do povo miúdo, lá saberão as mascaradas de que eles carecem, e que as palavras que nos dedicam, digestivos sendo para eles, analgésicos são para nós.
Ouço as vossas réplicas e não caibo em mim de desalento: que poderia ter sido feito em prol de todos nós, realmente, em quase cinco décadas de democracia e progresso? Quão mais longe se poderia ter ido? Que mais poderia ter sido ensaiado, além do que foi tentado a medo, com cautela experimental, para que não déssemos nós em morrer das farturas decorrentes da cura em passo duas vezes acelerado?
Dizei-me, invectivo-vos: se miseráveis somos há um milénio, que são, finalmente, cinquenta anos de pesquisas aturadas para sintetizar molécula e apurar posologia que nos resgate e exima às abjecções em que incorremos, por ausência entranhada de valor, por moleza, resignação e abulia?
Uni-vos a mim, irmãos estimados, crede que tivemos que ser analisados, mesmo sem o nosso conhecimento ou prévio consentimento, que tivemos que passar por todas as etapas e procedimentos laboratoriais, quais estirpe de biotério atravessa. Não vos indigneis, reconhecei comigo que urgiu que fôssemos cobaias anónimas de ambicioso experimento social. Algo melhorou, ainda assim, nesta meia centena de anos, ou não tivessem ficado para trás as agruras de sardinha repartida por três, como por ácida estatística se relatam os tempos do morgado de Comba Dão. Com a graça de deus, andamos calçados e vestidos, frequentam as escolas, os nossos filhos, com dúbio sucesso, é certo, mas enterrada está a era do assinar de cruz, do requerimento a rogo, do saber inconsistente de ou- vido.
Sondaram-nos, fomos esquadrilhados e compreendidos. Dizem-nos que constituímos a quinta parte da nação, que boa fatia de nós trabalha, sem que os proventos recolhidos bastem a uma existência isenta de sobressaltos. Proclamam, os eruditos, que uma parcela rigorosa dos nossos irmãos não aufere o suficiente para afrontar uma semana de férias, ou uma despesa inesperada de suas quatro centenas de euros...
Sim, passamos por uma série interminável de crivos, profusa e meticulosa é a informação gerada. Queiramo-lo ou não, o pobre será extinto, o pobre desaparecerá da paisagem, criando acréscimo de atractivo e conforto para o turista e, quem sabe, as bases de ampla miscigenação: o mundo precisa do português por inteiro, até da parcela embrutecida que num quinto constituímos.
Exorto-vos, meus irmãos, para que fixeis este limiar histórico, para que vos municieis da coragem para acolher o futuro de braços abertos, para que confieis na acção do legislador e do governante, do mecenas e do angélico sociólogo que nos levará aos portais do paraíso terrestre. É agora, olhemos para nós uma última vez, e voltemos pupilas para os nossos benfeitores, confiadamente, e para as vaquinhas que esvoaçam no horizonte.
Um fraterno abraço, deste meu exílio contemplativo nos morros de sonho da augusta Hassim Vam.

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