Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Feminino ou masculino?

Uma carruagem de aprendizagens

Escreve quem sabe

2018-12-02 às 06h00

Cristina Fontes

Por vezes, questionamo-nos se uma palavra pertence ao género feminino ou masculino. Hoje, trago-vos uma espécie de inventário das que tendem a suscitar mais dúvidas.
Antes de mais, convém distinguir sexo de género gramatical. O primeiro diz respeito a particularidades morfológicas dos seres vivos. O género gramatical segue regras linguísticas de flexão e de concordância.
Apesar de haver alguma confusão e até polémica a este respeito, não nos debruçaremos sobre este assunto neste artigo. Saliento, apenas, que para contornar o uso do masculino, mal denominado de sexista, muitos tendem a usar a arroba (@) para fazerem alusão aos dois sexos e/ou evitar a repetição da palavra no masculino e no feminino (Ex.: Obrigada a tod@s). Defendem os seus utilizadores que a arroba, neste contexto, se relaciona com o facto de o sinal gráfico se formar com um “a” minúsculo envolto num círculo aberto, lembrando a sobreposição das letras “a” e “o”, as tradicionais marcas do feminino e do masculino. Parece-me descabido e desnecessário, até porque a arroba não é um signo linguístico. Todavia, este uso tem vindo a ganhar adeptos, até entre linguistas.
Comecemos, então, pela arroba.
*O arroba/ a arroba - pertence ao género feminino. Segundo o Dicionário Houaiss, o símbolo @ foi “originariamente abreviatura feita por copistas medievais para o latim ‘ad’, que, em inglês, passa a abreviatura de “at”, indicando inicialmente, em linguagem comercial, o valor unitário do elemento que o precede (50@2£ = 50 a 2 libras cada um)”. O norte-americano Ray Tomlinson, criador do endereço eletrónico, utilizou o símbolo @ como separador entre o nome e o destino (xpto@gmail.com). Recomendo a leitura de um artigo muito interessante publicado na revista da Associação de Professores de Matemática. (Pode ser consultado em http://www.apm.pt /apm/revista/educ73/Tecnologias73.pdf, acedido em 28-11-2018).
*O celeuma/a celeuma – pertence ao género feminino e indica uma discussão intensa, ativa. (Ex.: o valor do IVA das touradas deu origem a uma grande celeuma nas redes sociais.)
*O ênfase/a ênfase - pertence ao género feminino e significa um destaque ou realce dado a algo. (Ex.: Os jornais têm dado uma enorme ênfase às questões ambientais.)
*O entorse/a entorse - pertence ao género feminino e designa uma lesão nos ligamentos que envolvem as articulações. (Ex.: Sofri uma entorse no tornozelo, durante uma queda.)
*O sentinela/a sentinela - pertence ao género feminino, mas pode referenciar um ser masculino ou feminino. Denomina-se “nome sobrecomum” e o determinante que o precede nunca se altera. (Ex.: O Rui é a sentinela do quartel.)
*O mascote/a mascote - pertence ao género feminino, mas pode referenciar um ser masculino ou feminino. (Ex.: O Pedro é a mascote da sua equipa.)
*O síndrome/a síndrome - pertence ao género feminino e refere-se a um conjunto de sintomas que caracterizam uma doença. (Ex.: O Rui sofre da síndrome de Ménière.)
Podemos também dizer e escrever “síndroma”, mas ambas as palavras são esdrúxulas, logo grafadas com acento agudo na antepenúltima sílaba.
*O TAC/a TAC – Acrónimo de Tomografia Axial Computorizada. A primeira palavra desse acrónimo é feminina, logo o acrónimo deve orientar-se por essa primeira palavra. (Ex.: Fui fazer uma TAC.)
*A pilota/o piloto - pertence ao género masculino, mas pode referenciar um ser masculino ou feminino. (Ex.: O piloto do carro que se despistou era uma mulher.)
*A hambúrguer/o hambúrguer – pertence ao género masculino. É um empréstimo da língua inglesa e mantém o género (masculino) da língua de origem. (Ex.: Comi um hambúrguer ontem ao almoço).
*A ídola/o ídolo - pertence ao género masculino, mas pode referenciar um ser masculino ou feminino. (Ex.: O meu ídolo é a Tina Turner.)
*A membra/o membro - pertence ao género masculino, mas pode referenciar um ser masculino ou feminino. (Ex.: A minha tia é membro do teu partido.)
A grama/o grama – ambas as formas existem. A primeira refere-se a uma planta rasteira, rizomatosa, pertencente à família das gramíneas (Ex.: A grama cobriu todo o pátio daquela casa.). A segunda corresponde à unidade de medida de massa. (Ex. Fui comprar duzentos gramas de fiambre ao talho.)
*A eclipse/o eclipse - pertence ao género masculino. Um eclipse ocorre quando um corpo celeste se move para a sombra de outro como consequência do alinhamento de três ou mais planetas no mesmo sistema gravitacional. No sistema solar, ocorrem eclipses quando o Sol, a Terra e o seu satélite, a Lua, estão alinhados (http:// ensina.rtp.pt/artigo/eclipses/, acedido a 28-11-2018). (Ex.: O eclipse total do Sol acontece quando a Lua passa em frente deste.)
*O Musse/a musse – (ou mousse) - pertence ao género feminino e é uma palavra de origem francesa. Entrou na língua portuguesa no feminino, como sucede na língua original. (Ex.: A minha mãe faz uma ótima musse de chocolate.)
*A champanhe/o champanhe - (ou champagne) – pertence ao género masculino e é uma palavra de origem francesa. Entrou na língua portuguesa no masculino, tal como na língua original. (Ex.: Ontem bebi um champanhe bruto delicioso.)
*O omoplata/a omoplata - pertence ao género feminino. Trata-se de um vocábulo da anatomia, que refere a “peça do esqueleto que entra na constituição da cintura escapular e também se designa escápula”, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa em linha. (Ex.: Ele partiu a omoplata esquerda.)

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