Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Fruta Feia

Uma Justiça que é tão cega

Escreve quem sabe

2016-04-16 às 06h00

Ana Cristina Costa Ana Cristina Costa

A atual preferência dos canais de distribuição por fruto-hortícolas de aparência perfeita foi uma lógica imposta, em grande parte, pelos consumidores, que na sua ida às compras escolhiam sempre os produtos com melhor aspeto, rejeitando os outros. Assim, desde o momento em que as frutas e hortaliças 'feias' deixaram de ser um produto para o consumidor, também o deixaram de ser para os supermercados e distribuição em geral. Portanto, têm de ser os consumidores a unirem-se agora para recolocarem a fruta e hortaliças 'feias' em circulação e como uma opção de consumo, daí surgiu o projeto Fruta Feia, no modelo de Cooperativa de Consumo, em que todo o possível lucro é destinado ao crescimento do projeto e onde todos os consumidores são parte integrante do mesmo.
Numa sociedade em que cada vez há mais pobreza e mesmo fome, deparamo-nos com a situação irónica e lamentável de cerca de 30% da fruta produzida em Portugal ser desperdiçada pois, apesar de ser saborosa e de qualidade, não tem o aspeto perfeito no que diz respeito à cor, formato e calibre que a grande distribuição procura e que os consumidores escolhem.
Segundo a FAO, cerca de metade da comida produzida no mundo cada ano vai para o lixo. O atual desperdício alimentar nos países industrializados ascende a montantes suficientes para alimentar as cerca de 925 milhões de pessoas que todos os dias passam fome. Este desperdício tem consequências não apenas éticas mas também ambientais, já que envolve o gasto desnecessário dos recursos usados na sua produção (como solo, energia e água) e a emissão de dióxido de carbono e metano, resultante da decomposição dos alimentos que não são consumidos. Só em Portugal são desperdiçadas um milhão de toneladas de alimentos por ano - 17% do que é produzido pelo país - de acordo com as conclusões do PERDA apresentadas em Dezembro de 2012. Os motivos para este desperdício são vários e ocorrem ao longo de toda a cadeia agroalimentar: modelos de produção intensivos, condições inadequadas de armazenamento e transporte, adoção de prazos de validade demasiado estreitos e campanhas promoções agressivas que encorajam os consumidores a comprar em excesso.
Outro problema é a preferência dos canais habituais de distribuição por frutas e legumes “perfeitos” em termos de formato, cor e calibre que acaba por restringir o consumo aos alimentos que respeitam determinadas normas estéticas. Esta exigência resulta num desperdício de cerca de 30% do que é produzido pelos agricultores.
A cooperativa Fruta Feia surge da necessidade de inverter tais tendências de normalização de frutas e legumes que nada têm a ver com questões de segurança e de qualidade alimentar. Este projeto visa combater uma ineficiência de mercado, criando um mercado alternativo para a fruta e hortaliças “feias” que consiga alterar padrões de consumo. Um mercado que gere valor para os agricultores e consumidores e combata tanto o desperdício alimentar como o gasto desnecessário dos recursos utilizados na sua produção.
O principal objetivo da Fruta Feia é reduzir as toneladas de alimentos de qualidade que são devolvidos à terra todos os anos pelos agricultores e com isso evitar também o gasto desnecessário dos recursos usados na sua produção, como a água, as terras cultiváveis, a energia e o tempo de trabalho. Ao alterar padrões de consumo, este projeto pretende que no futuro sejam comercializados de forma igual todos os produtos hortofrutícolas com qualidade, independentemente do tamanho, cor e formato.
Como impactos paralelos estão a consciencialização da população para a problemática do desperdício alimentar e para o facto de que alimentos feios não são lixo, e também a possibilidade de consumir produtos regionais a um preço mais baixo.
Atualmente, a Fruta Feia conta com vários pontos de entrega na Grande Lisboa e também no Porto. O sucesso da replicação do projeto é essencial para garantir o seu impacto e é, portanto, um dos objetivos, vir a replicar este modelo de consumo alternativo noutros pontos do país através de delegações locais. Quem sabe, em Braga?!

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