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Gostava de gostar de gostar

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Gostava de gostar de gostar

Voz aos Escritores

2019-06-14 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Um momento… Dá-me de ali um cigarro. Se eu fumasse, podia dizer, num momento mais metafísico, como o de Álvaro de Campos, algo sobre Santo Agostinho, Kant ou Hegel, e percorreria, talvez num êxtase muito específico, as curvas nevrálgicas do fumo. Mas não fumo. Não gosto. Fico aleijado das papilas gustativas, assim com «u», e já não poderei dizer, naqueles momentos mais íntimos, que me gustan los aviones e me gustas tú. Lembrei-me de repente da canção de Manu Chao por causa da repetição me gusta X / me gustas tú, e fiquei a pensar nas razões etimológicas e semânticas que autorizam, em português, o adjetivo «gustativo» quando, simultaneamente, desautorizam o verbo «gustar» [apa- receu mesmo agora sublinhado a vermelho], e que invertem as considerações em espanhol, língua em que o nosso «gostar» desfalece. Por experiência própria, sei dos problemas de tradução que «gostar» e «gustar» implicam, que passam pelo uso, ou não, de pronomes em função de sujeito, e de regências específicas (em português, alguém gosta de), e pelo uso de outros pronomes, não correspondentes, portanto, em espanhol (a Maria le gusta Juan). A verdade é que, em ambas as línguas, tais verbos expressam, em geral, gostos, desejos, preferências, interesses, aversões, sentimentos, e outras coisas mais, o que remete as diferenças mais para a estrutura argumental, sintática, do que para o âmbito semântico.
«Que coisa curiosa estas associações de ideias», diz Álvaro de Campos, chamando Santo Agostinho e a sua afirmação «nondum amabam et amare amabam» (todavia amei a amar). E joga com a recursividade de gostar e de amar.
Um dia, lendo os Diálogos de amor, de Leão Hebreu, grande filósofo do amor, dei comigo a pensar nas diferenças essenciais entre o amor e o desejo, que têm na sua essência o deleite (daí o verbo deleitar-[se]), e nas implicações que tais diferenças têm na forma como lemos Platão e Aristóteles. E concluí pela existência de sentimentos intermédios, que o povo, inventor inequívoco das línguas, com certeza inscreveu noutras palavras. E nós temo-las, pujantes e claramente distintivas: desfrutar, usufruir, gozar, apreciar, estimar, prezar, simpatizar, adorar, idolatrar, venerar, admirar, querer. Desfrutar, por exemplo, sendo ato de usufruir, é ato de apreciar e de deleitar-se com alguma coisa. Não refiro, claro, aquela ação de viver à custa dos outros, mas é visível na definição a presença dos canónicos sinónimos, que poderiam muito bem ser o admirar ou o estimar.
Quem desfruta, goza? Mas com certeza. Que o digam os brasileiros, que elevam o gozo ao máximo deleite. Sinceramente, não gosto nada de ser gozado, que este significado é de pôr de lado, mas que eu desfruto da leitura de Camões, Yeats ou Dostoievsky, nem se põe em dúvida. E de Pessoa, do Reis ou do Caeiro, que metem o sonho na realidade e dizem que o gozo é gozo nos dois lados, e que gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente. No que me concerne, elevo, porém, o desfrute à máxima potência, ao gozo sideral, quando inalo a beleza feminina, ou quando o Ronaldo faz daquelas bicicletas que percorrem todo o firmamento e desembocam, desejo eu agora, na baliza do Madrid.
E por falar em desejo: li há pouco que o amor e o desejo parecem contrários afetos da vontade. O Fílon bem perguntava porquê, e a Sofia, esperta como um rato, lá dava o exemplo da saúde, pois quando não a temos é que a desejamos. Mas não a amamos. Todavia, prezamo-la, quando a temos. Outra coisa é o adorar, homenagem apenas dirigida a Deus, por contraponto com o venerar, prática de devoção aos santos. Em todos os casos, está implícito o gostar e o amar, ou não estejam estes na interseção de todos os outros. Pelo menos é o que eu sinto quando gosto e amo, exceto quando penso nas espúrias idolatrias de figurões políticos e religiosos, à maneira do edir e das suas companhias.
Eu gosto de gostar de gostar. Sinto, como o nosso complexo Pessoa, que é coisa boa, e, embora me digam que se gosta de coisas e se amam pessoas, eu gosto muito de pessoas, de certas pessoas, claro, e amo profundamente outras, aquelas por quem o meu coração estala em todos os momentos, aconteça o que acontecer. Podia dizer Te quiero mucho, como às vezes dizem os nuestros hermanos, mas não o digo. Amo-te, Te amo, é outra loiça. Dizer-se que se ama, quando se ama, é coisa profunda de se dizer. E queima, como nos disse o Camões.
Quanto aos outros verbos, aos seus matizes, usemo-los no momento e na forma adequados. E não me venham dizer que desconhecem momento e forma, que disso percebemos todos a enormíssimos potes.

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