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Grécia: Enfrentar a realidade - sem bluff!

As vivências da emigração portuguesa nos palcos do teatro

Ideias

2015-01-29 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Foi sem surpresa que o Syriza de Alexis Tsipras (uma espécie de bloco de esquerda) ganhou as eleições legislativas na Grécia no passado domingo. Em 2° lugar, praticamente com a mesma percentagem que lhe tinha dado a vitoria nas últimas eleições, ficou a Nova Democracia do até agora primeiro-ministro Antonis Samaras, com 27,8%. Na Grécia (para se favorecer a constituição de maiorias parlamentares) o partido vencedor tem automaticamente um bónus de 50 deputados, num universo de 300 parlamentares. A extrema-direita denominada Aurora Dourada ficou em 3° lugar, com 17 deputados (6,3%). O Partido Socialista passou a ter um valor residual, com 13 deputados (4,7%). O quase desaparecimento do Partido Socialista grego é sinal preocupante que devia levar os socialistas portugueses a reflectirem sobre a falta de propostas e a vacuidade do seu discurso político.
A principal razão da votação da extrema-direita na Grécia é comum à de outros Estados-Membros na UE: a imigração.
O Syriza é uma amálgama de forças e movimentos políticos da esquerda radical. O seu discurso tem vindo a moderar-se. Já advogou a saída da Grécia do Euro, mas hoje defende a sua manutenção. Será uma posição que resulta de uma evolução ou foi uma questão táctica e oportunista, uma vez que mais de 70% dos gregos defendem a manutenção da Grécia no euro?
Na representação parlamentar, o Syriza ficou muito próximo da maioria absoluta, tendo-lhe faltado apenas 2 deputados. A sua ideologia é de extrema-esquerda, mas para fazer maioria coligou-se, imediata e apressadamente, com os Gregos Independentes, partido nacionalista de direita, que teve 13 deputados e 4,8% dos votos, conhecido pelas suas posições anti imigração, xenófobas e homofóbicas. A nossa esquerda não se pronuncia sobre esta coligação contra-natura? Esta coligação servirá para justificar o não cumprimento de promessas eleitorais por parte do Syriza e será, mais uma vez, uma questão táctica?
Um dos problemas da Grécia resulta da sua instabilidade governativa. Parece-me evidente que esta instabilidade vai continuar. Gostava de estar enganado. É que a UE precisa de governos estáveis e credíveis para gerarem confiança. O sucesso da Grécia é importante para todos os Estados-Membros da UE.
Estou convencido que vamos ter na Grécia uma repetição do que se passou em França com a vitória do socialista Hollande. Quando Hollande venceu as eleições, os socialistas portugueses afirmavam que a UE teria uma nova etapa, um novo exemplo. Hoje, os mesmos socialistas fogem de Hollande o mais que podem. Tsipras, o líder do Syriza, também ele promete aumentar os salários, as reformas, o número de funcionários públicos. Tsipras é um novo Hollande: promete gastar sem dizer onde vai buscar o dinheiro, um filme já visto e revisto com as consequências que todos, infelizmente, conhecemos e sentimos. Com a vitória do Syriza voltamos a ver os mesmos socialistas, acompanhados da esquerda radical portuguesa, a falar num novo ciclo, numa nova era, num novo herói. Não faltará muito tempo para nenhum deles querer tirar uma 'selfie' com o Tsipras...
É que um Estado que depende dos outros para sobreviver pode e deve negociar, mas nunca vai impor. O esforço que o povo grego fez foi brutal e não pode ser desperdiçado. As medidas de austeridade foram até ao limite e há que aproveitar o novo ciclo que está iniciado na UE.
A UE construi novas fundações para suportar a zona euro. Aumentou a supervisão, avançou com a União Bancária, criou o Mecanismo Europeu de Estabilidade. Por sua vez, os Estados-Membros avançaram com reformas internas com o objectivo de equilibrar as suas contas públicas. Portugal e a Irlanda concluíram com sucesso os seus programas de ajustamento e, hoje, caminham pelo seu próprio pé e têm as suas economias a crescer.
A UE, para favorecer o crescimento e o emprego, vai avançar com o Plano Juncker, a fim de executar, nos próximos 3 anos, projectos no valor de 315 mil milhões de euros. Os fundos e programas europeus calendarizados até 2020, também eles, estão a começar a ser executados. Para que o dinheiro chegue à economia real, às empresas, o BCE vai comprar mensalmente, a partir de Março e até Setembro de 2016, dívida pública no valor de 60 mil milhões de euros. A interpretação das regras relativamente ao défice público foi flexibilizada. Tudo isto está aprovado! Mas não me admirava que, um dia desses, uma certa esquerda venha dizer que foi graças a eles, ou até ao Syriza. Uma casa não se começa pelo telhado. A UE, ainda que muitas vezes de forma excessivamente lenta, tem respondido consistentemente às dificuldades e 'inventado' planos e instrumentos para a procura do crescimento e do emprego. O novo ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, ainda não tinha tomado posse e já reconhecia que tinham feito bluff na campanha. Ainda não tinham começado a governar e já estavam a enfrentar a realidade!

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