Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Homenagem a Francisco Salgado Zenha

Encontrão Ambiental

Ideias

2014-04-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

O programa comemorativo dos 40 anos do fim da Ditadura em Portugal ficou marcado, em Braga, pela inauguração de um monumento que evoca e perpetua a figura de um dos mais insignes bracarenses do século XX: Francisco Salgado Zenha.
Situada na praça Conselheiro Torres Almeida, junto ao convento do Pópulo, esta homenagem vem repor uma tardia dívida de gratidão.

Importa recordar aqui a figura de Salgado Zenha que, nestes dias, passou a reunir ainda mais consenso, não só em Braga como em todo o país: Francisco Salgado Zenha nasceu em Braga, no dia 2 de Maio de 1923. Depois de efectuar os seus estudos no Liceu Nacional de Sá de Miranda, seguiu para Coimbra para se vir a licenciar em Direito, em 1946, um ano após o final da Segunda Grande Guerra Mundial.

Foi na parte final da sua licenciatura, (1944/1945) que Francisco Salgado Zenha se tornou presidente da direcção da mais emblemática Associação Académica do país, a da Universidade de Coimbra. Ainda nesse mesmo ano lectivo de 1944/1945 dirige o jornal “Via Latina”, da mesma associação.

Foi na altura, em que dirigia esse jornal e era presidente da Associação Académica de Coimbra, que Salgado Zenha protagonizou um dos seus mais representativos actos ao recusar-se a participar numa manifestação de apoio a Oliveira Salazar. Em consequência, acabou por ser demitido da respectiva Associação Académica.

Nessa mesma altura funda, com outros colegas, o “Movimento de Unidade Democrática Juvenil” (MUD Juvenil). Esta ousadia levou-o à prisão, onde acabou por ser torturado.
Salgado Zenha continuou a sua caminhada contra o regime ditatorial de Oliveira Salazar. Participou activamente na campanha do General Norton de Matos à Presidência da República. Seria nesta ocasião que Salgado Zenha conheceu Mário Soares. Contudo, a participação activa de Salgado Zenha nesta campanha levou-o, mais uma vez, à prisão, onde viria a ser condenado por dois anos.

Em 1952 voltou a ser preso em Lisboa, agora por ter protestado contra a prisão de vários camaradas seus.
Entre 1953 e 1958 este árduo lutador pela liberdade foi proibido de exercer qualquer tipo de actividade política. Mas Salgado Zenha não desistiu e integrou a Resistência Republicana e Socialista, que havia sido constituída em 1955.

As ameaças, as perseguições, as condenações, as prisões e as torturas ao bracarense Salgado Zenha não o atemorizavam. Assim, integrou activamente a campanha de apoio ao General Humberto Delgado à Presidência da República. Nesta mesma altura solicitou, através de um abaixo-assinado, a libertação de Álvaro Cunhal, ele, também, um preso político.
Francisco Salgado Zenha foi, de facto, intransigente na luta contra o regime ditatorial. Em 1961 subscreveu o célebre “Programa para a Democratização da República”, facto que o levou, mais uma vez, à prisão.

Em 1964 integrou a Acção Socialista Portuguesa e no ano seguinte decidiu, mais uma vez, demonstrar toda a sua coragem na luta contra o regime em vigor, ao candidatar-se a deputado pela “Oposição Democrática” em 1965 e em 1970.
Em 1970 Salgado Zenha voltou a ser preso em Lisboa e durante seis meses ficou sujeito a uma vigilância policial.
Em 1973 integrou o grupo que fundou o Partido Socialista.

Após a restauração da democracia em Portugal, Francisco Salgado Zenha foi candidato, em 1975, às eleições legislativas, sendo então eleito deputado à Assembleia Constituinte.
No I, II, III e IV Governos Provisórios Francisco Salgado Zenha foi Ministro da Justiça. No VI Governo Provisório foi Ministro das Finanças.

Os anos finais da vida política de Salgado Zenha ficaram marcados pela ruptura que manteve com o Partido Socialista, que se vinha a acentuar desde 1980. Essa ruptura ficou bem vincada na candidatura que protagonizou em 1985, nas eleições Presidenciais, às quais concorreu o também socialista Mário Soares, que viria a ser eleito Presidente da República.

Sobre Francisco Salgado Zenha escreveu Rui de Brito, na obra “Salgado Zenha, o Homem e a Liberdade”: “Francisco Salgado Zenha é um homem de contacto agradável, expressão linear e clara, aparentemente calmo, afável e nada interessado em impressionar o interlocutor.
No entanto, por detrás dessa mesma aparência, é possível detectar uma vida interior apaixonada…”.

Francisco Salgado Zenha foi, na sua vida profissional, um excelente advogado, defensor de causas públicas e um verdadeiro defensor dos direitos mais elementares dos cidadãos. O Parlamento Português distinguiu-o, na Sessão Comemorativa do XXI Aniversário da República.
Em Braga, Francisco Salgado Zenha foi Presidente da Assembleia Municipal, entre 5 de Março de 1977 e Setembro de 1985.

Francisco Salgado Zenha, o advogado, o escritor, o resistente e o político bracarense viria a morrer num dia de grande significado religioso para os católicos: o dia de Todos os Santos, do ano de 1993. Tinha 70 anos. Numa altura em que muitos questionam a perda dos valores que estão implícitos no espírito de Abril de 1974, nada melhor do que recordar e homenagear figuras que desempenharam grande papel na defesa dos valores da democracia, da liberdade e da tolerância. Salgado Zenha foi um dos expoentes máximos na defesa da liberdade, por isso, devemos elogiar a actual homenagem e criticá-la, apenas, por ser tardia.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

27 Junho 2019

Braga e o Plaza

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.