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Humanidade

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Escreve quem sabe

2017-02-14 às 06h00

Analisa Candeias

Ser humano tem muito que se lhe diga. Em particular, na sociedade em que vivemos hoje em dia, apelar à humanidade de cada um de nós requer um esforço extra. E igualmente uma dose extraordinária de paciência. Porque isto de viver entre pessoas, com pessoas e para pessoas é uma tarefa hercúlea, digna de ser investigada e analisada, digna de se tomar com atenção.
Mas isto de ser humano começa a estar fora de moda. É uma chatice, uma daquelas obrigações que teima em aparecer nas nossas vidas, que vai surgindo, rompendo aqui e acolá, incomodando e levando - a alguns de nós, por vezes - a pensar o que é isto de sermos humanos. Não dá mesmo para adiar… Ser humano não acontece. Ser humano existe connosco.

Viver em comunidade - e quando digo viver é com interação, com dinâmica, com movimento - implica um gasto de energia em relações. Com os vizinhos, com o carteiro, com a senhora da padaria onde vamos ao final da tarde, com a família, com os colegas. E connosco também - sim, porque connosco o gasto de energia ainda é maior, embora, por vezes, menos sentido. E esta energia impulsiona-nos a criar, a tomar decisões, a comunicar. Impulsiona-nos para a frente, para os lados, para trás. Num círculo de emoções e afetividade, numa transformação e transição constantes. Assim… Bem-vindo à vida real. Quando fazemos o check-in, no momento do nascimento, raramente nos dão as boas-vindas formais, quanto mais prepararem-nos para o que vem a seguir - mas dão-nos outro algo muito importante: a humanidade. Que é possível de preservar, por mais estranho que pareça.

O desperdício de tempo passado com assuntos que não nos dizem respeito ou que nos remetem para a inutilidade é um desperdício da nossa humanidade. O não acreditarmos em nós igualmente se torna um desperdício, visto que nos impossibilita de avançarmos. A falta de caridade ou a falta de compaixão são também um esbanjamento da nossa energia naquilo que não nos deixa sentir a humanidade. Ser humano contempla olhar para aquele Outro que se encontra bem perto de nós. Saber que esse também é humano e que, como nós, tem receios, medos, angústias, esperanças, fé ou confiança. Ser humano é reconhecer limitações e saber desistir. Encontrar nos espaços à nossa volta a união e aceitar que a mudança deve acontecer. Não porque somos obrigados; mas sim porque somos impelidos, como seres humanos, a sermos melhores. Sermos mais.

Estas questões das modas, passageiras e voláteis, permitem-nos verificar o valor da humanidade quando não a encontramos no nosso quotidiano e ainda legitimar a sua importância. Ser bom, amável, honesto ou fiel são caraterísticas intemporais e que nos ajudam a viver mais como seres humanos e não como extraterrestres, junto daqueles semelhantes a nós. Muitas vezes é quando fazemos o check-out (e eu, como profissional na área da saúde fui presenciando esta situação algumas vezes) que nos apercebemos de quão oca e vazia foi a nossa humanidade. A quão pouco humana foi a nossa experiência de ser humano nesta realidade. O muito que nos falta ainda fazer, com muito pouco tempo e energia para gastar, sem possibilidade de saborear aquilo que é verdadeiramente ser.

E a paciência…Uma virtude, que pode ser cultivada individualmente mas que terá bons resultados em grandes grupos. É igualmente a paciência uma caraterística que nos permite um menor gasto de energia. É como se colocássemos o sistema em suspensão, apreciando, desfrutando, vivendo um momento de cada vez até aquilo que é realmente importante acontecer. A paciência, que nos ajuda a perdoar, outra caraterística que nos possibilita ser mais humanos.

A moda existe de acordo com o que é permitido acontecer. Talvez um pouco contra a maré, posso pedir que nos deixemos de modas, em especial daquelas que não nos libertam para sermos mais e melhores humanos. A autenticidade e a honestidade, valores que nos ajudam a respirar, ainda não passaram de moda - são clássicos, ficam sempre bem com qualquer trapinho.

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