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Ideias alternativas (ao populismo)

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Ideias alternativas (ao populismo)

Escreve quem sabe

2019-05-18 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Os factos estão aí e são muito preocupantes, a desigualdade entre ricos e pobres no mundo tem vindo a aumentar em ritmo crescente. Segundo o último Relatório Mundial da Desigualdade de 2018, 1% da população mundial beneficiou com 27% da riqueza produzida nos últimos 35 anos. Por sua vez, em 2017 segundo informe da organização não-governamental Oxfam (sigla em inglês, de “Comité de Oxford de Combate à Fome”), mais de 80% da riqueza produzida no mundo foi apropriada pelos mais ricos que representam apenas 1% da população mundial. Pode-se, então, levantar a seguinte questão: “Como estimular a iniciativa criadora de riqueza e, ao mesmo tempo, fazer com que a riqueza criada crie condições para a redução da pobreza e desigualdade no mundo?”.

Por outro lado, os riscos que o avanço tecnológico no quadro capitalismo neoliberal dominante implicam para a democracia representativa estão bem definidos na obra “O fim da era do humanismo” de Achile Mbembe (2016), filósofo e teórico político camaronês, licenciado pela Universidade de Sorbonne (França). Na verdade, as falsas notícias “fake news”, o controlo de informações pelo sector de tecnologia, a robotização, a inteligência artificial (IA) e outros instrumentos tecnológicos, estão cada vez mais afectando todos os mercados e distorcendo os resultados eleitorais à escala mundial. Porém, tais riscos também podem estar associados ao surgimento de novas oportunidades económicas, sociais e políticas. Ou seja, são precisamente os novos instrumentos de tecnologia que possibilitam uma gestão pública mais participativa, com mais controlo das contas públicas e da qualidade da despesa realizada pelo Estado, bem como, uma mais elevada participação dos cidadãos no estabelecimento de metas, na constituição de leis, na tomada de consideração pelos legisladores sobre como os seus eleitores votariam em determinados assuntos, etc.

Entretanto, pode-se levantar agora a seguinte questão: Existirá um outro cenário possível e diferenciado da visão de A. Mbembe quanto a evolução mundial? A resposta é sim, no caso de o capital financeiro e o sector da tecnologia, ao invés, do sucedido até aqui, centralizar o seu esforço para o objectivo de uma maior prosperidade mundial. Mas, porque o fariam? O fariam, evitando perdas, na hipótese de consciencialização dos riscos que a concentração do rendimento, do aumento da desigualdade económica social e da deterioração do meio ambiental inerentes a um sistema altamente predatório. E como? Através de incentivos fiscais, apoios diversos e demais formas de obrigatoriedade impostas pelo Estado, mas também, de forma voluntária, por interesse próprio na construção de um mundo mais justo, menos violento e com qualidade de vida dos cidadãos. Mas, não será uma ingenuidade perspectivar tal cenário, quando estamos perante sociedades que se desintegram e onde a verdade absoluta é a de que a felicidade é sinónimo de dinheiro. Pode ser, mas algo tem de ser feito, sendo indispensável uma profunda reflexão de que tudo isso trouxe sobretudo sociedades doentes e infelizes. Nesse sentido de mudança, vai a atitude da maioria dos jovens que nos dias de hoje tem mostrado que a transição da sociedade de consumo para a sociedade de bem-estar, implica a criação de outros tipos de relações de trabalho e modos de viver em sociedade, sem a necessidade de acumulação de riquezas, mas sim, com a existência de mais prosperidade económica e social. A atitude dos jovens na actualidade são assim e sem dúvida sinais de esperança quanto a evolução e o futuro da sociedade a nível planetário.

Mas porquê fundamentalmente os jovens? Devido a desregulamentação do mercado de trabalho “imposto” pelo neoliberalismo, o aumento da pobreza, da desigualdade e da precariedade laboral que os atinge de sobremaneira, tanto no caso de jovens qualificados como dos menos escolarizados (Organização Internacional do Trabalho). De igual forma, constata-se a tendência de os jovens terem mais baixos salários e o crescimento da proporção de jovens que não se encontram desempregados e nem estão a estudar ou em formação. Ora, a incerteza crescente que afecta parte considerável das gerações mais novas tem implicações claras no decorrer das suas vidas sociais e pessoais, retirando-lhes capacidade de projectar o futuro.
Em suma, tal cenário nada favorável à população jovem não deixa, porém, de ser potencialmente indutor de tomada de consciência por ela dos desequilíbrios sociais existentes e, logo, de vontade de “mudar o mundo”.

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