Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Internacionalizamo-nos?

A Casa de Chocolate

Ideias

2013-06-05 às 06h00

Analisa Candeias

Vivemos tempos em que a informação chega até nós de forma quase instantânea. Continuamente e desmesuradamente, vivemos tempos de globalização, trocas de conhecimento rápido, experiências no limite e para o limite. É-nos possível a facilidade nas permutas de opinião, nas viagens e nas mudanças. No fundo, é tudo uma questão de prioridade: decidir onde quero e como quero estar naquele segundo, naquele minuto, naquela hora.

Igualmente na dimensão profissional das nossas vidas a globalização e a internacionalização se tornam urgentes e fundamentais. É quase difícil não nos atualizarmos, não sabermos o que os colegas do país do lado, ou do outro lado, se encontram a desenvolver, para onde se dirigem e porque o fazem. Sabermos quais são os objetivos que os norteiam, porque, eventualmente, são idênticos aos nossos - será então mais fácil um trabalho em conjunto, com diversas cabeças pensantes e executantes na busca de algo que poderá ser comum a todos.

Para já, e de acordo com os momentos atuais, podemos concluir: internacionalizamo-nos.
A grande questão surge quando nos perguntamos se realmente o queremos fazer. Se é um gosto e vontade própria ou se, e no caso específico da Enfermagem, se não existe outra alternativa. Encontramo-nos a formar e a desenvolver grandes profissionais nesta área do conhecimento para serem enviados, recrutados e apreciados pelos outros países que os acolhem - de braços abertos, diga-se de passagem. E, no fundo, pode-mos perguntar: será que têm vontade de ir? De se internacionalizar?

Tenho vindo a assistir, nos últimos anos, a atuais colegas, antigos estudantes da instituição onde trabalho, saírem do seu país para atuarem como profissionais de Enfermagem, especializados e com excelentes competências, com rumo a outras realidades. Vou tendo algum feedback: a maioria encontra-se bem, bastante realizada, com perspetivas de progresso nas diferentes carreiras existentes nesse mundo e com ofertas para desenvolvimento de novos conhecimentos.

É muito bom saber que estas pessoas (que de uma forma ou de outra internacionalizaram a minha vida) são bons profissionais, reconhecidos pelas chefias e incitados a serem melhores. É ainda melhor, saber que são pessoas reconhecidas pela sua formação de base, que constatam a qualidade do ensino que frequentaram e que voltam para, muitas vezes, agradecer os rumos propostos aquando os seus inícios na profissão de Enfermagem.

Porém, questiono-me ainda… Estes colegas querem mesmo sair do país? Querem mudar de casa, ir de encontro a realidades pouco familiares, cuidar de outras pessoas que não sejam “suas”? É-lhes dada a opção de não querer?
Por isso, e de acordo com estas questões, podemos concluir: internacionalizamo-nos?

Vivemos tempos em que, além da urgência da rápida propagação da informação e conhecimento, são impostas tomadas de decisão muito difíceis e custosas, de grande responsabilidade e com um grande peso na vida de cada um de nós. A poucas pessoas é dada a opção de escolha relativamente à saída do seu país, por motivos de exigência profissional ou de, em último caso, sobrevivência. A mim, que ajudo a formar alguns daqueles que saem para rumo a novos mundos, custa-me saber que lá fora estes enfermeiros são altamente aproveitados e potencializados, enquanto que, por cá, se mantêm em condições complicadas e de quase precariedade.

Resta-me ainda conseguir distinguir a importância da internacionalização e a necessidade da mesma. São aspetos muitos diferentes, vividos e experienciados de forma também diferente, em que os seus conteúdos irão marcar, de forma indiscutível, o desenvolvimento de uma profissão e a história da Enfermagem. Saberemos aproveitá-los? E dar-lhes o devido valor nesta contínua construção?

Termino por dar os parabéns aos meus atuais colegas, em especial aqueles que ajudei a formar. Sei que os processos para tomar a decisão não foram simples nem facilitados, mas reconheço que essa audácia vos tornará, sem dúvida, melhores colegas e melhores profissionais. E, deste modo, poderemos ser também uma melhor Enfermagem.

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