Correio do Minho

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“Espanta-lobos” - mais uma planta invasora. De onde vem? Onde invade? Como controlar?

Opções muito discutíveis

Escreve quem sabe

2012-11-17 às 06h00

Ana Cristina Costa Ana Cristina Costa

As invasões biológicas por espécies exóticas*, incluindo por animais, plantas, fungos e outros organismos, é um problema crescente a nível mundial. Em Portugal, a área ocupada por plantas invasoras** tem aumentado muito nos últimos anos, existindo legislação relativa a este tema desde 1999 (Decreto-Lei n.º 565/99). Para várias espécies, esta expansão está frequentemente associada a incêndios e perturbações diversas, como é o caso de várias acácias, háqueas ou da ervas-das-pampas. Uma das espécies ainda pouco reconhecida como invasora, mas cada vez mais frequente, por exemplo, em ambientes urbanos, é o espanta-lobos, também conhecido por ailanto ou árvore-do-céu.

O seu nome científico, Ailanthus altissima, remete para “árvore-do-céu” (ailanto) e para a altura que as árvores podem atingir, até 20 m. É uma espécie dióica, i.e., com flores masculinas e femininas em árvores separadas. As plantas masculinas têm um cheiro bastante desagradável justificando o nome de “espanta-lobos”; as árvores femininas têm grandes quantidades de flores muito vistosas - amarelas tingidas de vermelho. É uma planta caduca que passa portanto mais despercebida durante o Inverno quando não tem folhas.

O espanta-lobos é uma espécie oriunda da China que foi muito utilizada como planta ornamental, um pouco por todo o mundo, mas rapidamente revelou comportamento invasor, devido às suas características. É uma espécie de crescimento muito rápido (até 3 cm/dia), que forma povoamentos densos impedindo o desenvolvimento da vegetação nativa. Prospera em quase todos os solos (e mesmo em telhados, paredes ou betão) e climas, é muito resistente a insectos e doenças, e tolerante à poluição. Produz muitas sementes aladas (± 350.000/ano), que, como tal, podem dispersar até grandes distâncias com a ajuda do vento, e germinar quando têm humidade. Adicionalmente, rebenta vigorosamente de raiz, formando extensos estolhos radiculares. Invade principalmente margens de estradas, áreas perturbadas e espaços urbanos, mas começa a surgir com alguma frequência em zonas ribeirinhas.

O controlo desta espécie não é fácil uma vez que o corte simples resulta na formação de vigorosos rebentos de touça e raiz. As plantas jovens podem ser arrancadas manualmente, tendo o cuidado de evitar que fiquem raízes de grandes dimensões no solo. Para árvores adultas a técnica de golpe/injecção é das que funcionam melhor: fazem-se vários cortes no tronco (por ex., com machada ou inchó), num ângulo de 45° até ao alburno, e injecta-se imediatamente (nos segundos que se seguem), em cada incisão, cerca de 1ml (0,5 a 2ml consoante o tamanho do corte) de herbicida com um esguicho.

Os vários cortes devem ser feitos à mesma altura do tronco, deixando 2-4 cm de casca por cortar entre eles. Para plantas de menores dimensões 2 ou 3 cortes são suficientes, e não devem ser profundos (para evitar que a planta parta). Apesar de a planta ficar rapidamente castanha e com aspecto de morta, é importante que seque totalmente antes de se proceder ao seu corte, o que pode demorar mais de 1 ano. Esta técnica aplica-se no Verão ou Primavera (com tempo seco), quando as folhas estão completamente expandidas. No entanto, como para a maioria das plantas invasoras, o controlo inicial por si só não é suficiente, sendo essencial assegurar controlos de seguimento após a primeira intervenção, de forma a cortar as árvores mortas, e controlar rebentos e novas plantas que germinem entretanto.
Mais informação em: www.uc.pt/invasoras

*Planta exótica (do grego exotikós “de fora”; alóctone, introduzida, não-indígena): que se fixa para além da sua área de distribuição natural, depois de ser transportada e introduzida pelo Homem, ultrapassando barreiras biogeográficas.
**Planta invasora: planta exótica que produz descendentes férteis frequentemente em grande quantidade e os dispersa muito para além dos progenitores, com potencial para ocupar áreas extensas, em habitats naturais, semi-naturais ou outros. Pode ter impactes negativos a nível ecológico, económico, de saúde pública e outros.

Texto redigido em colaboração com Elizabete e Hélia Marchante.

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