Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Mais um cagarro

Vamos falar de voluntariado…

Ideias

2011-12-23 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

O “cagarro” ou “cagarra” é uma ave marítima em vias de extinção que vem pairando e nidificando em certas ilhas do Açores, sendo sob o ponto de vista classificativo um animal vertebrado, ovíparo, pulmonado, de sangue quente, com o corpo revestido de penas.

Assemelhando-se à gaivota, ainda que de menor porte, tivemos possibilidade de o ver e ouvir aquando de uma deslocação nossa aos Açores, referindo-se a propósito que também é tido como a alcunha dos habitantes da ilha de Santa Maria, aliás como a de picarotos o é dos habitantes da ilha do Pico.

Mas dando-se de barato e ultrapassando-se a temática das alcunhas e as eventuais ilações que daí se possam tirar, a realidade é que tivemos de facto a possibilidade de ver e ouvir o catarro na ilha Terceira, pelo que temos para nós que esta espécie de micro-gaivota tem profundas e inultrapassáveis raízes e ligações açoreanas já que nas ilhas irão sobrevivendo cerca de 60% da tal espécie. Mas se vê-los é uma coisa, e até relevante em termos turísticos e de conhecimento das realidades, características, peculariedades e imagem das ilhas, já ouvi-los é outra coisa e muito diferente devido a todo um canto(!?) ou piar incomodativo, multifacetado, persistente e de si mesmo irritante. Aliás muito pior e mais incomodativo que o “chimfrim” das gaivotas que enxameiam as Berlengas, diga-se.

Claro que tudo isto vem a propósito da insólita nomeação pela Assembleia da República do deputado açoriano Ricardo Rodrigues para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários, facto este que logo motivou justificada indignação e crítica por parte do Sindicato do Ministério Público, que aliás, e com toda a razão, acusa o Parlamento de “falta de juízo crítico”, o que nem sequer será novidade.

E se é de todo incontornável que Ricardo Rodrigues, o açoreano que se fartou de “cagarrear” na última legislatura e vem “botando faladura” e tendo intervenção em tudo quanto diz respeito a questões relacionadas com o direito (vá lá saber-se porquê!), a sua nomeação ou escolha para Conselho Geral do CEJ ultrapassa os limites do bom senso e de toda e qualquer mediana inteligência.

Não nos querendo debruçar nem mergulhar em todo o seu histórico pessoal e profissional nos Açores de que por vezes se fala à boca pequena, até porque ninguém está livre de ser vítima de ultrajes e maledicências, a verdade é que tal político já demonstrou há muito que não passa de um mero “catarro” que veio nidificar para o parlamento, onde o seu “canto” e “piar” se tornou cada vez mais irritante e incomodativo, sendo igualmente certo que a questão do “surripianço” dos gravadores aos jornalistas que o entrevistavam ainda mexe e não está esquecido, revelando-nos um acérrimo apologista da “acção directa” e deixando entrever sinais incontornáveis do espírito democrático e dos ideais de liberdade de informação e de opinião destes nossos políticos enfarinhados na “democracia”. Mas isso é outro assunto.

Aliás a personagem açoreana, tal como o cagarro, não passa de mais uma das peculiares e muito especiais “aves” da política portuguesa que, em revoada ou em bando, têm vindo a pairar e a nidificar no país e governação, tendo-nos conduzido à malfadada, gravosa e crítica situação em que nos encontramos. E escrevemos “aves” porquanto, atendo-nos às realidades e vivências do país, de modo algum podemos esquecer e ignorar o seu curioso e profundo significado, no cruzadismo e no dicionário, em que “ave” tem a significação de “pessoa velhaca, esperta, trapaceira”, de “esperto, finório, perspicaz” e mesmo de “matreiro, arisco”. Uma riqueza vocabular e de abrangente significação que assenta como uma luva em muitos dos políticos que têm vindo a nidificar nos governos, empresas públicas, institutos, autarquias, etc., etc., cujos cantos de “cagarro” se têm vindo a transformar em algo de totalmente insuportável, irritante e insustentável para o povo.

Aliás um povo que desde há muito vem sofrendo as consequências e aturando as matreirices, manhas e trapaceirices dessas “aves”, que cada vez mais se perfilam como ainda mais irritantes, funestas e incómodas que os ditos cagarros. E o problema é que, muito longe de uma qualquer e desejável extinção, cada vez mais as vemos a intrometer-se, a infiltrar-se e a nidificar em tudo quanto seja poder, direcção e chefias numa esconsa e incontida ânsia de tudo controlar. E sempre a pretexto e a coberto de uma muito discutível mas apregoada vivência (!?) democrática.

Mas a realidade é que também desde há muito a nossa democracia se travestiu com roupagens de “conveniência“, “convénio”, “jogos de interesses” e de “lobies” tendo-se de todo em todo resvalado para uma incontornável e indisfarçável partidocracia, com esta ou aquela cor ou face conforme a vontade de um eleitorado cada vez mais “aluado” e “alucinado”. Curiosamente com a envolvência de certos partidos em convenientes acordos, convénios, trocas de favor, nomeações de “pacote” e “rateio” de determinados cargos, lugares e funções.

Aliás o Tribunal Constitucional mantém-se para não se perder a possibilidade de meter lá quem se deseja, e da cor, sendo inquestionável que, a pretexto de dar voz ao povo e eficácia à democracia, se fez “infiltrar” nos Conselhos Superiores das Magistraturas certos “cagarros”, uns declaradamente políticos e outros como “agentes encobertos”, que ofereçam garantias de “segurança” e “fidelidade” nas orientações e rumos desejados. Sobretudo na Justiça!...

Mas se isto parece duro, incompreensível e até irreal, será suficiente estarmos atentos às realidades e debruçarmo-nos sobre todo o descambar da justiça e da sua imagem e o minar da confiança dum povo.

Cada vez mais perplexo com “casos” a alongarem-se no tempo e alguns “cagarros” políticos a “esgueirar-se” como enguias a coberto de leis alavancadas pelo então chamado Bloco Central (PS e PSD), cujo convénio veio a desaguar em reformas e mais reformas das leis criminais e processuais penais de todo em todo enrodilhando e envolvendo a justiça em “rodriguinhos” de recursos, interpelações, incidentes, miudezas formais, inconstitucionalidades etc., etc., que vêm levando à prescrição, à impunidade e a um incontornável aumento da criminalidade. Num natural, desejado e de todo conveniente seguritismo de formal estruturação, esconsa inspiração e de muito funestas consequências, refira-se.

Mas o curioso é que tudo se despoletou com o caso da Casa Pia, que alarmou um grande número de “cagarros”, alavacando a necessidade e conveniência de todo um controlo.


Tudo sempre legal, note-se, no quadro das leis vigentes e do sistema implementado, mas em que os casos Portucale, Freeport, Furacão, Face Oculta, Submarinos, Cova da Beira e outros são toda uma referência ... e a não esquecer.

E a propósito, já há decisão final no processo Casa Pia? Para quando o recurso para o T.Constitucional? Haverá idêntico alongamento no tempo no Face Oculta ? Até se chegar à prescrição?

O Vara tem falado “bem”, sobretudo utilizando os media, e não lhe mingua dinheiro para sustentar bons advogados, obter pareceres, fazer impugnações, alimentar incidentes e interpor recursos mesmo até ao Constitucional, que aliás vem servindo na conveniência. A todos, diga-se, e também a ele para quem o subsídio vitalício que recebe como antigo político não deixará de ser uma preciosa ajuda!...

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