Correio do Minho

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Mandela - A força do exemplo

Parecer (técnico)

Ideias

2013-12-12 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Nelson Mandela faleceu aos 95 anos, depois de uma vida dedicada a combater a discriminação racial, a injustiça e a desigualdade. Partiu, mas ficou. Deixa-nos um enorme legado, um exemplo de vida, que nos incita a todos a sermos melhores.
Podemos dizer que Mandela foi ele, apesar das suas circunstâncias. Mandela sofreu, cresceu e fica até a sensação que parece ter-se tornado melhor com as adversidades. Foi um homem superior.

Nelson Rolihlahla Mandela nasceu em 18 de Julho 1918. Em 1943 aderiu ao Congresso Nacional Africano - ANC -, uma organização que pretendia acabar com o apartheid (o regime político que promovia a segregação da população negra). Em 1961 tornou-se comandante do braço armado do ANC. Em 12 de Junho de 1964 foi condenado a prisão perpétua. Foi libertado em Fevereiro de 1990 por ordem do presidente sul-africano Frederik Willem de Klerk.

Mandela passou a liderar o ANC e negociou o fim do regime de apartheid com o Presidente De Klerk, com quem recebeu em 1993 o Prémio Nobel da Paz. Foi eleito Presidente da África do Sul em 1994. Exerceu um único mandato que terminou em 1999.
Foi o Presidente da reconciliação e da inclusão, ao promover a integração de todos os grupos étnicos e raciais.

A sua luta de toda a vida foi a procura da democracia, justiça e igualdade entre os homens. Quando estava preso, acenaram-lhe com uma vida fácil e faustosa e a liberdade a troco da renúncia das suas convicções. Mandela manteve-se firme e inabalável.
Manteve-se fiel e reforçou os seus ideais. Saiu da prisão para a Presidência do seu País. Mas isso não o envaideceu, nem utilizou o poder para se vingar. Foi magnânimo e perdoou. Na decisão, colocava-se no lugar do outro. O que o torna maior e apreciado é o seu exemplo de vida, a sua humildade, capacidade de perdão e coerência. A palavra tem força quando o que se prega corresponde ao que se faz.

Mandela, também tratado por Madiba - sinal de carinho e respeito - demonstrou uma humanidade invulgar, foi portador de uma mensagem universal e isso tornou-o num ícone global.
A mensagem serve para todos e ninguém é o seu dono ou pode apropriar-se dela. A este propósito, registo a postura maniqueísta de uma certa esquerda extremista e populista que desenterrou um voto de Portugal numa resolução de 1987 na ONU, relativa à libertação de Mandela, afirmando que o então primeiro-ministro Cavaco Silva tinha votado contra!

O que se passou foi bem simples: Portugal tinha votado a favor da libertação imediata e incondicional de Mandela sem recurso à violência. Na parte em que se admitia a libertação com possibilidade de recurso à violência, Portugal votou contra. Muita desta esquerda extremista esquece-se que nessa altura havia 1 milhão de pessoas na África do Sul com direito a passaporte português.

A UE, e cada um de nós, tem em Mandela uma inspiração. Bem precisamos! Mandela combatia a intolerância e o racismo que hoje floresce na UE em movimentos nacionalistas e extremistas. Note-se o crescimento da extrema-direita em França e Reino Unido. Nem os ‘puros’ e ‘virtuosos’ do Norte da UE, como Holanda, Finlândia, Dinamarca e Suécia, escapam a este fenómeno populista e extremista.

Estes extremismos populistas colocam em risco a própria paz na União Europeia que damos, erradamente, como absolutamente adquirida.
O caminho tem de ser o da tolerância e da promoção da igualdade de oportunidades, o que implica uma ‘solidariedade de facto que se concretize através de acções concretas’, como afirmou em 9 de Maio de 1950 Robert Schuman. É tempo de partilharmos os sucessos e os insucessos. Temos assistido à nacionalização dos sucessos, ainda que sejam resultado do projecto europeu. Ao invés, os insucessos, ainda que sejam da responsabilidade do Estado-Membro, são europeizados! A UE e as suas instituições vão tendo as costas largas. Até um dia...

O que ajudou a tornar Mandela superior foi o seu desapego ao poder. Depois de um mandato em que seria facilmente reeleito, entendeu que não deveria continuar e apoiou a transição.
Em África, o costume é vermos a legislação e as constituições serem alteradas para que os líderes se perpetuem no poder. Na UE, em Portugal e na nossa região, também constatamos e assistimos à dificuldade de alguns ‘saírem de cena’ e se despojarem do poder a que estavam rotineiramente habituados.

Mandela é insubstituível. A sua mensagem fica, mas a sua presença era uma garantia de estabilidade na África do Sul, onde nada será como dantes. A um ano das eleições gerais, não me admirava que existissem cisões no ANC. Num país onde a pobreza e o desemprego têm taxas enormes - o dobro da UE -, teme-se pela estabilidade e aumento de criminalidade.
Haja esperança! Mandela continua. Nas cerimónias fúnebres assistiu-se a um cumprimento público histórico entre os ‘inimigos’ Barack Obama e Raul Castro. Mandela sorriu...

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