Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Memórias

Perdidos e achados

Memórias

Ideias

2019-09-13 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Talvez porque o tempo vai passando rapidamente, as memórias voltam de forma sistemática, e deixam-se ficar de forma aninhada, preservando a história e as experiências… Por este tempo que vamos atravessando agora, de iniciação de novos ciclos escolares para tantos alunos, lembro um agosto perdido lá muito atrás, há mais do que trinta anos. Partia então para os EUA, para uma das maiores aventuras da minha vida, provavelmente com riscos mal calculados, acompanhada apenas por uma bebé de exatamente 12 meses. Ia fazer o doutoramento e aproveitar uma oportunidade quase única, numa altura em que não existia ainda qualquer forma de financiamento em Portugal.

O mundo era então bem diverso do que é hoje - sem telemóveis, sem internet, os computadores ainda numa fase muito embrionária, tudo contribuía para uma perceção da distância real muito superior à de hoje.
O choque cultural foi palpável – numa universidade com mais de 30.000 alunos, a inscrição dos mesmos durava apenas um dia, onde se obtinham desde logo todas as informações administrativas necessárias para todo o ano. Na semana em que cheguei aos Estados Unidos, nesse mesmo tal dia de inscrição, aluguei um apartamento e consegui a ligação imediata da luz, da água, do telefone e do cabo para a televisão. Ao tempo, por cá, tinha feito o pedido para ter uma ligação telefónica em casa há mais de seis meses, sem sucesso… Calma, foi há mais de 30 anos, num tempo estranho, muito estranho em que não havia telemóveis, e em que era ainda necessário pedir a ligação para um serviço central! Enfim, quase na idade da Pedra Lascada!

Quando as aulas começaram, tinha já passado pela livraria do campus para comprar os livros indicados nas bibliografias fornecidas para as diversas disciplinas. Lembro da surpresa que tive com a multiplicidade das escolhas – livros novos partilhavam o espaço com livros usados, todos é claro com preços diferentes. Era normal os alunos venderam os manuais utilizados no final de cada semestre, fazendo por essa via forma de financiar compras sucessivas.

Face a um mercado totalmente inusitado em Portugal, lembro a procura pela relação mais perfeita possível entre um orçamento apertado e a tipologia do livro usado, quanto mais riscado e manuseado mais barato. Foi de facto uma ajuda, que entre outras a que tive a sorte de poder aceder, me ajudou a suportar o peso financeiro do projeto a que me tinha abalançado. Desde então, foram tantos os livros usados que fui comprando on-line, provenientes dos quatro cantos do mundo, uma vantagem comparativa a que me fui habituando e cada vez mais valorizando.

Lembro esta experiência, agora, quando num contexto tão diverso daquele do início dos anos 80, leio tantas críticas aos livros usados que são disponibilizados a custo zero aos alunos, e logo às suas famílias. Parece que alguns dos livros disponibilizados, enfim pode ser que até mesmo um número significativo deles, estão rasurados e escritos. E isso tem justificado críticas mais ou menos severas, e recusas por aí fora. Amplificadas pelos jornais, minimizam o impacto positivo aos mais diversos níveis de um instrumento importante da política educativa, e de um mecanismo de redistribuição de rendimentos.

É importante certamente que, nas escolas e nas famílias, se vá acrescendo a responsabilidade social e o civismo no manuseamento de bens que são de facto de todos. Reconhecendo que um livro usado, tal como ocorre como qualquer outro bem em situação idêntica, está manuseado, não é novo enfim - mas permite um acréscimo real no rendimento de cada família que pode aceder, e isso é muito positivo.
De resto, fica sempre a escolha alternativa – é sempre possível comprar um novo.

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