Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Meninos dormindo

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Voz às Bibliotecas

2018-02-15 às 06h00

Victor Pinho

Na sua Barceliana, isto é, na sua colecção de livros e autores barcelenses, possui a Biblioteca Municipal de Barcelos um pequeno livro de António A. Marques de Azevedo (1872-1948) intitulado Em frente dos Meninos Dormindo de Tei-xeira Lopes, editado em Famalicão, pela Tipografia Minerva de G. Pinto de Sousa & Irmão, no ano de 1913 e que teve uma tiragem de 100 exemplares.
Trata-se de um trabalho, escorço apreciativo, de candidatura a vogal correspondente do Conselho de Arte da 3ª Circunscrição deste barcelense que, depois de ter sido monárquico progressista, foi fundador e director do semanário republicano Era Nova, Comissário de Polícia, em Braga, deputado pelo Partido Republicano Português, em 1915 e 1919, tendo sido eleito várias vezes vice-presidente da Câmara dos Deputados, chefe de gabinete do Dr. Domingos Pereira e chefe da 1ª Repartição da Direcção Geral do Ensino Primário e Normal do Ministério da Instrução, tendo tido papel decisivo na criação das Escolas Primárias Superiores.

Meninos Dormindo, a belíssima escultura em mármore de Teixeira Lopes, notável trabalho, foi mandada fazer por José de Beça e Menezes e entregue, em Setembro de 1912. Foi colocada na chamada Casa do Jardim, no chamado Campo Cinco de Outubro ou Jardim Velho, um dos primeiros, se não mesmo o primeiro jardim público em Barcelos.
Sobre esta escultura, escreve Marques de Azevedo: O pequenito, em cujo rosto, através do ar risonho que o banha, há como que um leve acento de precoce meditação, lembrando a incipiente exteriorização de pensador másculo, poisa a resplandecente cabecita na entumescência em que a laje se alteia para o seu extremo, estendendo de costas, em gestos lassos de subjugante calma, a nudez esplêndida do seu pequenino corpo de impecável perfeição, onde o sol mergulha, como por entre pétalas de mimosa flor, as lúcidas carícias dos seus beijos penetrantes.

Sobre o seu lado esquerdo e sem que ao torso lhe prejudique a patenteação esbelta em que avulta, reclina-se a meia foice, a pequenita, voltada sobre a direita, junta ao companheiro, em posição que, não esquecendo o pudor instintivo do sexo, deixa admirar toda a beleza que oferece, nas atitudes naturais, de rigorosa observação, que acusam, também, a influência térmica do ambiente (). O semblante espelha o sorriso angelical duma inocência augusta, nimbando-se na paz letífica das alma límpidas. Sereno, mas vibrante, como doce alvor de manhã primaveril ().

Não foi só com esta peça escultórica que José de Beça e Menezes, cujo centenário da morte vai ocorrer no próximo dia 3 de Março, fez enriquecer ainda mais o seu vasto património. São várias as peças de arte existentes na Casa do Jardim, entre as quais: o quadro a óleo A Batalha de Aljubarrota, de Veloso Salgado, a tela O Feito do Alcaide de Faria, de Ernesto Condeixa, adquirida em 1908, a Mulher de Pescador e Chegado Tarde de Sousa Pinto, adquiridos em Fevereiro de 1911, numa exposição, no Porto, o quadro Trecho da Ribeira do Porto de José Brito, adquirido em Março de 1911 e o Regresso da Primavera, do barcelense Cândido da Cunha.
José de Beça e Menezes foi um dos principais, senão o primeiro agricultor do Minho, sendo proprietário de duas magníficas quintas, a do Couto, na freguesia com o mesmo nome e a da Granja, em Barcelos, quintas modelo, agricultadas com os mais modernos e adiantados processos de cultura. Esta última quinta é referenciada no livro O Minho e suas Culturas do Visconde de Vilarinho publicado em 1902.

Além de permitir que visitassem as suas quintas todos os que quisessem estudar e aprender os métodos de cultivo, custeou, no ano de 1905, uma Escola Móvel Agrícola, com o seu nome, que funcionou numa sala do edifício da Câmara Municipal onde esteve a Escola Móvel Maria Cristina dirigida pela empresa do Comércio do Porto e também subsidiada por ele.
Dotado de um espírito generoso e benemérito, socorreu os mais desfavorecidos e protegeu as causas da instrução e da educação, designadamente os Asilos de Barcelos e o Círculo Católico de Operários de Barcelos.
Foi na sua casa, que alguns republicanos históricos, incluindo o Dr. Martins Lima, velho republicano e figura destacada do Partido Republicano Português, se reuniram, em Outubro de 1912, para a constituição do Centro Republicano de Barcelos.
É este Barcelense Ilustre que vamos evocar no próximo dia 3 de Março, às 16 horas, na Biblioteca Municipal de Barcelos, com uma conferência intitulada Cinco Artistas em Barcelos. Sousa Pinto, Ernesto Condeixa, Veloso Salgado, Teixeira Lopes e Cândido da Cunha, a proferir pelo doutor Hugo Barreira, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

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