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Mobilidade e modo de vida…

Coisas que se vão sabendo

Mobilidade e modo de vida…

Escreve quem sabe

2019-06-03 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Se há tema cada vez mais corrente e central quando falamos de cidade (regra geral, quando falamos dos seus problemas) é a mobilidade. Mobilidade essa entendida como a forma, o modo, a condição de deslocação de um ponto físico para outro ponto físico, correntemente associando-se e confundindo-se mobilidade com infraestrutura viária ou meios de transporte ou comportamentos sociais tidos como facilmente ultrapassáveis e dependentes da acção politica. Mobilidade essa que também encarada (progressivamente) como área de actuação incontornável na gestão e governação da cidade e, cada vez mais, alvo de acesa discussão e reflexão sobre as causas e efeitos da dita “má mobilidade”. Mobilidade essa também porque objecto de proliferação de apoios financeiros para a “mudança de paradigma da forma como nos movimentamos” e de estudos e análises, tendencialmente, materializados naqueles instrumentos de planeamento progressivamente generalizados e denominados planos de mobilidade (urbana sustentável).

Mas, se é verdade e inevitável o reconhecimento deste protagonismo, não é menos verdade que a percepção de uma leitura enviesada do que é a mobilidade domina o panorama actual sobre este tema.
Mobilidade é o resultado, ou conjugação, de duas realidades: a acessibilidade e o modo de vida. Não é a consequência lógica e directa de intervenções e opções políticas, daquelas que produzem (ou deveriam produzir) resultados imediatos, antes processo longo e lento, tão inato à condição humana que se poderá dizer que a mobilidade “não se resolve”, antes “melhora-se” em função da possibilidade, capacidade e circunstância.
A acessibilidade distribui-se em função da infraestrutura física e do sistema de transporte: a infraestrutura é o canal, o espaço preparado para possibilitar as nossas deslocações. Dir-se-á exemplo mais simples e comum – as vias rodoviárias.

Todavia, por si só, as infraestruturas não resolvem a acessibilidade já que esta depende e carece de sistemas que permitam o seu (bom) uso e usufruto. Não basta ter canal para me deslocar de um ponto para outro, é necessário que tenha meio para lá chegar. Falamos, naturalmente, dos sistemas de transportes que, na prática, são estruturas e meios que nos acomodam e constroem as possibilidades de nos deslocarmos. De forma genérica, dir-se-á que a infraestrutura é o suporte e o sistema de transporte é o meio e veículo.
Porque assim é, a mobilidade é o resultado produzido sobre o modo de uso desta acessibilidade, a forma como a aproveitamos e rentabilizamos para responder às nossas necessidades e vontades. E é aqui que se torna inevitável falar e reflectir sobre o nosso modo de vida, o nosso comportamento estrutural e opções quotidianas. Porque é este mesmo modo de vida que condiciona e, dir-se-á, manipula a acessibilidade em função de nós próprios (e, tantas vezes, em detrimento da comunidade).

Na verdade, hoje, assumimos um modo de vida, de forma simplificada, sedentário por obrigação e opção: Obrigação porque uma conjuntura de opções económicas e laborais, de organização social e cultural fazem com que tenhamos rotinas e horários incontornáveis e que nos obrigam a, tantas vezes, a desencontrar viagens, que nos impelem a construir “dispersamente”, dificultando optimização de recursos e transportes públicos, que nos fazem prevenir, sobrecarregando a acessibilidade com viagens sobrepostas e de utilidade reduzida. Opção porque perseguimos o conforto e a segurança (que nos faz privilegiar o nosso automóvel, o conforto que o mesmo nos proporciona e a independência de horário que nos oferece), a facilidade e o imediatismo (que evita tempos de espera ou espaços partilhados).

Um modo de vida feito à nossa medida, construído em função dos nossos interesses e que, indelevelmente, marca e condiciona toda a mobilidade. Podemos revelar a melhor das infraestruturas e sistema de transporte e pensar que, assim, a mobilidade se resolverá… Mas, sem um modo de vida compatível, não há acessibilidade que resista e responda positivamente. E, consequentemente, não há mobilidade que seja boa, Porventura, será esta a resposta ao eterno dilema de se observar uma estrada de alto calibre cheia de veículos motorizados “parados”. Será o copo meio vazio da falta de capacidade de resposta da via? Ou do copo meio cheio de um excessivo número de veículos, afunilando, no tempo e no espaço, para o mesmo ponto. Poderá ser algo com a infraestrutura, é certo! Mas, seguramente, não deixará de estar relacionado com a segunda.

Tudo o atrás exposto leva à conclusão de quanto enviesada anda a discussão sobre a mobilidade. Demasiadamente centrada na acessibilidade, a mobilidade não se resolverá sem alteração de modos e hábitos de vida. E, assim, atenuar e reduzir pendularidade cíclicas e massivas, movimentos viários desnecessários e sobreposição e veículos subaproveitados na sua capacidade de transporte (não será esta a imagem que guardamos da mobilidade urbana?)
É certo que não há mobilidade sem acessibilidade. Mas não há mudança na mobilidade sem alteração do modo de vida… Por isso é que o tema da mobilidade é tão difícil e lento. E, talvez, por isso devamos rejeitar as “receitas formatas e imediatas”. E não embarcar na ilusão de que a mobilidade é tema resolúvel em tempo breve. Pelo contrário!

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