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Na pele de um touro

Semana Europeia da Mobilidade: incentivo para uma Europa mais eco-friendly

Conta o Leitor

2019-08-11 às 06h00

Escritor Escritor

Manuel C. Correia

O sabor da erva fresca é um manjar dos deuses. O sol da primavera, acompanhado por uma brisa vinda de leste completa o paraíso. Só me apetece correr até não poder mais, e, cair na erva, rebolar como os cães, saltar como os cavalos, sentir que sou livre, como as aves que voam sobre o meu lombo e pousam nas árvores. Adoro esta vida, só tenho que comer, não tenho que fazer mais do que existir. Os humanos, trabalham todo o dia e fazem tudo para me ver saudável e forte. Por vezes olham para mim e falam algo mas eu nunca os entendi. Até já me acenaram com um pano e gritando na língua deles, mas eu nunca os entendi, achei que eram elogios. Sei que o meu pai já não o vejo desde que um dia entrou num camião. Tenho saudades dele, de brincar com ele, do carinho que me dava. Estou preocupado, triste, sinto que talvez nunca mais o vá ver. Da minha mãe só me lembro de quando era muito pequeno, depois meteram-me juntamente com outros da minha espécie, todos jovens e estamos aqui neste paraíso. Começo a pensar que, a erva um dia vai acabar. É apenas um pressentimento que me causa um arrepio pela espinha.

Os dias foram passando e nem sinal do meu pai. Todos os dias quando via um camião a chegar, olhava na esperança de o ver sair, mas sempre em vão. Nos camiões entravam os mais fortes e saiam os pequenotes ainda muito jovens, tal como eu um dia o fui. Hoje já não sou um pequenote, sou um jovem a ficar forte como o meu pai. Os camiões desapareciam e apareciam, a erva fresca já não tinha o sabor de outros tempos. Os humanos cada vez mais me acenavam com os panos e vinham montados em cavalos. Comecei a reagir aos acenos, o meu sangue fervia, a vontade de correr era instintiva, e, só parava quando eles acabavam os acenos.

Mal o sol apareceu no horizonte, fui encaminhado juntamente com dois companheiros para um camião! O meu coração batia forte, o espaço apertado, com o ar poluído dos excrementos e gazes nossos e de outros que ali estiveram pouco antes de nós. Durante toda a viagem, lembrei-me da minha mãe e do meu pai. Do meu pai porque agora sabia o que ele passou, só não sabia, ainda o que viria a seguir, quando a viagem acabasse.
 Finalmente o camião parou e de seguida as portas abriram-se, corri para a liberdade, pensava, quando me apercebi, estava enjaulado! Preso num espaço apertado sem me poder deitar, cansado da viagem, adormeci de pé.

O sono, depois o sonho, um prado de erva verde e fresca, o meu pai e a minha mãe ao meu lado, num horizonte repleto com os da minha espécie, a paz fresca e eterna numa simbiose perfeita entre a natureza e o reino animal. Uma agulha despertou-me do sonho e do sono, tudo se esmoronou com um simples golpe a frio. Empurrado, corri para uma saída sem fim, um círculo castanho de terra batida. Rodeado de humanos, faziam sons estridentes e histéricos, fiquei estático, sem saber se estava a ter um pesadelo ou se era mesmo um pesadelo real? Abanei a cabeça num gesto instintivo, belisquei-me com uma pata na outra, rodei a cabeça no sentido de um chamar, e, apareceu um humano montado num cavalo bem janota, caminhei para eles devagar e eles para mim, de repente eles aproximaram-se com tal velocidade que quando eu pensei que era para me fazer festas, senti um ferro no meu lombo, como se toda a dor do mundo estivesse ali na ponta aguçada e penetrante.

Mas o que é isto?
As palmas brindavam o cavaleiro, como se fosse um herói, como se fosse uma grande façanha ferir um pobre animal indefeso. A noite mal tinha começado, o meu sofrimento ainda ia no início, os ferros foram-se amontoando no meu lombo, eu corria em desespero, as minhas lágrimas eram de sangue, vivia o meu holocausto isolado.
A minha vontade era espetar um corno em tudo que me aparecia à minha frente, mas a cada investida levava com mais um ferro, e outro e mais outro. Por momentos soube o porquê de nunca mais ver o meu pai, eu sentia o cheiro dele, o mesmo sangue que corria das minhas feridas, o mesmo sofrimento, a mesma frustração, o mesmo grito que caía no vazio. O meu corpo desfalecia pouco a pouco, já mal corria, no meu lombo já não cabiam mais ferros, deitei-me na terra e senti um pouco de paz, no mesmo espaço havia uma festa e um funeral. A resignação era a fase quase terminal, apenas o sangue que me restava corria lentamente, a vitalidade era ténue. Num último esforço levantei-me, e, corri com todas as minhas forças levanto tudo à minha frente, só parei quando do outro lado um monte de humanos travaram este frágil touro!

Por fim, o fim do meu sonho, o fim da minha agonia, o fim do meu fim neste mundo aonde continua o holocausto animal.

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