Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Natalino, uma outra face do medo

A avestruz risonha que tocava Strauss

Conta o Leitor

2019-07-27 às 06h00

Escritor Escritor

Ana Maria Monteiro

A mãe chamou-lhe Natalino porque, contra as suas expectativas, o seu bebé não nasceu no dia de natal, mas sim uma semana mais tarde, a 1 de janeiro. O pai nunca lhe chamou nada além de palavrões, “filho duma p*ta” era o que mais usava; um mimo, quando comparado aos insultos com que mimoseava a mulher.
Foi o único a sobreviver, entre muitos abortos espontâneos, provocados pelas sucessivas agressões que a mãe sofria às mãos (e aos punhos e aos pés) do marido, guarda prisional bêbado e analfabeto que, dia após dia, encontrava nesse exercício de poder a afirmação da sua masculinidade.

Natalino cresceu ao som do rádio que o pai colocava em volume máximo para que a vizinhança não escutasse os gritos da mãe. O rádio emitia alto as músicas da época e a propaganda nacional-socialista enquanto o pai exercia o próprio regime dentro de casa. Natalino entalava a cabeça entre almofadas, tentando abafar o som da violência misturado à música e às vozes institucionais que proclamavam glórias pátrias que nunca foram verdadeiras, som que se corporizava no ar e conseguia penetrar-lhe a pele por cada poro. Calava as lágrimas (um homem não chora) que se misturavam às partículas sonoras que o penetravam e se traduziam numa vergonhosa enurese noturna e, noite após noite, jurou a si mesmo que jamais seria como o pai.

Nunca se atreveu a fazer frente ao pai, por mais que o desejasse, era vencido pelo medo e não conseguia perdoar-se pela sua cobardia.
A mãe amou-o como pode, à sua maneira, dura e distante, os sentimentos calejados pelo sofrimento e pobreza em que vivia. Natalino frequentou a escola até ao ensino secundário e foi um aluno brilhante. Era um menino inteligente, alegre, saudável, bonito e cedo conseguiu um bom emprego e conquistar a mulher dos seus sonhos e que amou durante toda a sua vida.
Foi também cedo que começou a perder a audição; logo que casou, ou talvez ainda mais cedo.

Teve um único filho a quem tentou proporcionar tudo o que lhe faltou, a começar por um bom ambiente familiar, mesa farta e cultura, muita cultura, exceto música, detestava música, particularmente a de rádio. Apagar o rádio, era a primeira coisa que fazia quando chegava a casa, sem qualquer respeito por quem pudesse estar a ouvir.
A mulher acabou por habituar-se a isso, sem grandes questionamentos e passou a desligar o aparelho antes da sua hora de chegada; o filho aprendeu a não gostar de música.

Foi um homem pacífico que detestava barulho ou confrontos de qualquer espécie, não discutia nunca com a mulher, limitava-se a virar costas. Se o menino fazia uma birra, dava-lhe o que fosse, para que se calasse mas, se não conseguia, então reunia num único grito rugido toda a violência que o havia penetrado e limitava-se a mandá-lo calar com uma ferocidade tal que o menino emudecia perante o vislumbre duma selvageria que nunca chegou a manifestar-se.
O filho cresceu admirando o pai, que quase considerava um herói e detestando o avô que nunca conheceu, pois teve a simpatia de morrer de cirrose alcoólica pouco antes do seu nascimento.

Já velho, Natalino acabou por ensurdecer completamente. Agora, lá em casa, já se podia ouvir música à vontade, sem que ele reclamasse por isso, mas perdera-se o hábito e a mulher não voltou a ligar o rádio.
O filho tentou, mas apesar de superficialmente gostar de música, nunca conseguiu apreciá-la e lamenta profundamente não conseguir usufruir desse prazer, quase invejando o enlevo que percebe nos que a escutam.
O filho também estudou, namorou, trabalhou, casou por amor e teve uma filha.
A menina nasceu surda.
Há fugas que se perpetuam.

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