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Ideias Políticas

2019-04-30 às 06h00

Carlos Almeida

Os resultados eleitorais que nos chegam da vizinha Espanha não são nada animadores. Na verdade, vieram confirmar os receios que há algum tempo se anunciavam. Não são, aliás, caso único na Europa e sucedem-se a outros que abriram caminho ao mais perigoso dos populismos. A vitória relativa do PSOE não é, por vários motivos, capaz de esconder os sinais evidentes de implantação de forças e movimentos reacionários. A presença da extrema direita no parlamento espanhol não é, em si mesma, contrariamente ao que alguns dizem, uma novidade. Desde o derrube de Franco e do regime fascista que essas forças, com mais ou menos cosmética, arrumaram-se na bancada parlamentar do Partido Popular – partido de direita do arco de governação -, ainda que de forma dissimulada. Contudo, a presença agora alcançada pelo Vox, através de candidatura própria, ganha contornos extremamente preocupantes, pelos lugares de que passa a dispor no parlamento espanhol, mas acima de tudo pela possibilidade de ocuparem o palco político com um discurso marcado pelo ódio, violência e xenofobia. Desengane-se quem promove a suavização desse discurso.
Por cá, ouvimos há dias Nuno Melo, cabeça de lista do CDS às próximas Eleições para o Parlamento Europeu, dizer que o Vox não é um partido de extrema-direita, convidando as pessoas que pensam assim a lerem o programa político daquele partido. Estas declarações, que na verdade dizem muito mais sobre o CDS do que sobre o Vox, revelam, por um lado, que Nuno Melo está muito familiarizado com o programa político dos fascistas espanhóis, mas expõem também a agenda cada vez menos escondida do CDS para Portugal. Pode, no entanto, tirar o cavalinho da chuva, que em Portugal, apesar dos passos dados atrás (todos eles com o contributo do CDS), vingou uma revolução que rompeu com um regime hediondo.
Infelizmente, em Espanha a história é outra. Não se deu uma verdadeira ruptura política e social, mas uma transição entre regimes, branqueadora dos crimes do fascismo, o que deixou marcas profundas na sociedade a todos os níveis e, como seria de esperar, nas estruturas partidárias e na governação política. Dessa forma, o PP foi em Espanha o partido a quem coube absorver os restos mortais do franquismo, por forma a ressusci- tá-lo sob outra roupagem. Durante quatro décadas, foi partido de governo várias vezes, sendo responsável pelo agravamento das condições de vida da população, bem como pela implementação de políticas repressivas. Vários dos seus dirigentes estão afundados em casos de corrupção, tráfico de droga e criminalidade. Das eleições de ontem, saiu como o grande derrotado, abrindo caminho ao avanço de forças de extrema-direita, radicais e agressivas, que antes albergava no seu meio, dando-nos mais um sinal da falência de uma Democracia que, na realidade, nunca se chegou a consolidar.
Nas mãos do PSOE (que de socialista e obreiro já pouco ou nada tem) fica a chave para desvendar o futuro próximo do país. O PSOE, apesar da vitória eleitoral, não obteve maioria absoluta, ficando muito aquém dos 176 deputados necessários para tal feito. Caso decida juntar-se à coligação de esquerda Unidas Podemos, continuará ainda a precisar de outro parceiro, obrigando a um acordo mais amplo envolvendo forças de esquerda independentistas, nomeadamente do País Basco e da Catalunha, que, diga-se, obtiveram um resultado muito positivo, ao contrário do BNG na Galiza que, infelizmente, apesar de ter duplicado o número de votos, não conseguiu eleger.
Outro cenário que está colocado, uma vez que tudo leva a crer que é inviável qualquer acordo com o defunto PP, é um eventual entendimento com o Ciudadanos – outra formação de direita oriunda da fragmentação do PP -, cujos deputados, somados aos do PSOE, ocupam 180 lugares no parlamento, o que garantiria uma maioria governativa. Perante essa possibilidade, foram muitos os apoiantes do PSOE que já fizeram chegar a mensagem de que um acordo com o partido de Rivera jamais será aceite pelas bases. A pressão aumenta de nível e a exigência para que o PSOE não ceda aos interesses da política de direita sobe de tom. A ver vamos como vai reagir Pedro Sánchez. Estou certo de que, dessa sua decisão, se ditará o futuro de Espanha, mas também do próprio PSOE. Ou este percebe que esta é, provavelmente, a sua última oportunidade para fazer jus à sua denominação, ou espera-o um destino muito semelhante àquele onde ontem chegou o PP.

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