Correio do Minho

Braga, terça-feira

“Non è Mai Troppo Tardi” 

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Voz às Escolas

2018-10-03 às 06h00

João Graça

Adoro os finais de tarde de domingo! São belos pela sua quietude e pela possibilidade de desligar do quotidiano.  
Adoro os finais de tarde de domingo porque faço o que não consigo fazer habitualmente. Num desses finais de tarde, de quietude, esbarrei num belo filme, sempre atual, para quem é apaixonado pela educação. “Non è Mai Troppo Tardi”, que numa tradução livre significa algo, como “Nunca é Tarde Demais”, um filme italiano que nos fala de Alberto Manzi professor e pedagogo que na Itália dos anos 60 ensinou milhões de italianos a ler e escrever.  

A narrativa do filme retrata uma Itália, campesina, empobrecida intelectualmente, pueril, ingénua e quase nostálgica. Ao longo do filme a história de Manzi confunde-se com a história do ensino à distância. Manzi entrou na casa de milhões de italianos e permitiu que a escola se instalasse na casa de muitos deles. Transbordava entusiasmo, método, vontade de experimentar e de recolocar continuamente tudo em discussão e em jogo. Cada aula assumia-se como um momento de experimentação, de pesquisa e de reflexão. Contrariava os cânones da escola italiana. Assumia a sala de aula como um ambiente dinâmico, recetivo à inovação, à partilha de experiências O respeito pela diferença e pelos ritmos de aprender, a persistência, a tentativa, o encorajamento, as competências de cada um são de facto o segredo do sucesso de Manzi.  

O ensino à distância não começou, no entanto, com Manzi. Teve os seus primórdios no século XVIII e no século XIX, Sir Isaac Pitman, criou no Reino Unido, o primeiro curso à distância. É bem provável que o ensino à distância se deva a razões profissionais, sociais ou mesmo culturais, associadas a fatores como isolamento, a flexibilidade, a mobilidade, a acessibilidade ou a empregabilidade. Portugal teve ao longo dos tempos cursos por correspondência e a clássica Telescola, com recurso à utilização sistemática dos média, em educação formal. Em 1967, Portugal tinha 194 postos de ensino à distância e 4219 alunos inscritos. Ao longo dos tempos, juntas de freguesia, escolas, bombeiros, centros paroquiais abriram as portas, ligaram as televisões e garantiram a um milhão de portugueses formação. Em Itália, Portugal e noutros países nascia assim um novo paradigma de escola! Os média cruzavam-se com o ensino formal em sala de aula, ontem como hoje! Mais tarde dá-se o surgimento de comunicações assíncronas como e-mails, conferências à distância, uso da Internet, permitem perdurar no tempo registos do ocorrido, permitem a existência de formadores ocultos, permitem acelerar ou fazer regredir o tempo, tornar o síncrono no assíncrono, naquilo a que se convencionou chamar e-learning  

A escola é/deve assumir-se como mutável, interativa, voltada, mas não curvada sobre si, agregadora integradora dos “seus”, das tecnologias. A escola é feita de Manzis que num qualquer canto obscuro, isolado, percebem a importância das palavras, do empoderamento que o conhecimento dá, percebem que os modelos de escola devem ser flexíveis e ajustáveis, ao aluno para que o aluno se ajuste a ele. 
Fala-se, hoje, de um novo paradigma de escola, fruto de novas exigências, impostas por uma globalização e incerteza permanentes. A escola deve responder a esta nova realidade desenvolvendo nos alunos “competências que lhes permitam questionar os saberes estabelecidos, integrar conhecimentos emergentes, comunicar eficientemente e resolver problemas complexos.”. 

Esta escola, que se quer, se deseja inclusiva, que promova um conjunto de competências essenciais, garantindo ao individuo, à saída da escolaridade obrigatória, a capacidade de um exercício de cidadania responsável, com a capacidade de tomar decisões e polivalente. Esta escola quer-se flexível, ajustável ao aluno, em flexibilidade curricular. 
 Quais as diferenças entre a escola de Manzi e a experiência de flexibilidade curricular que as escolas portuguesas estão a vivenciar? A essa pergunta talvez arrisque uma resposta. Diferentes tecnologias, diferentes médias, mas os mesmo sonhos, a mesma vontade de fazer acontecer escola. Nietzsche disse “E aqueles que foram vistos a dançar foram julgados loucos por aqueles que não conseguiam escutar a música.”, talvez seja esta a verdadeira essência da mudança, dos sonhos, da diferença… 
Vamos continuar a acreditar que “A Escola faz-se com TODOS!”

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