Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Ideias

2015-01-13 às 06h00

Analisa Candeias

No último fim-de-semana foi-me oferecido um livro especial. Um livro fora do comum da minha estante e coleção (já algo numerosa e diversa), mas que apresenta uma imensa complementaridade à nossa vida. À vida de cada um de nós, que a vai vivendo no dia-a-dia, nas rotinas, nos espaços entre duas noites. Este livro é feito da própria vida - de alguém que existiu e que viveu para a existência curta e fugaz - e relata a forma extraordinária que o ser humano apresenta para alcançar a felicidade (essa, de que todas as pessoas falam e andam atrás).

Somos, ao falarmos de felicidade, feitos de finitude. E, por vezes, ao andarmos nesta busca, nesta imensa correria e agitação, esquecemo-nos de viver realmente o nosso dia, as nossas vidas, os nossos intervalos entre as noites. Que podem ser, na realidade e frontalidade, os últimos dias, as últimas réstias de vida e os últimos intervalos de que temos consciência. A questão da nossa busca à felicidade e aos estados de equilíbrio ocupam-nos tanto o tempo, o pensamento e as ações que nos esquecemos de viver, de ser em vida, e de ser em comunidade.

No último fim-de-semana foram-me oferecidos momentos especiais. Momentos fora do comum do dia-a-dia, mas que são obrigatórias paragens de cada um de nós. São momentos que, acontecendo a qualquer um, nos fazem parar e pensar nestas buscas, parar e pensar no essencial que conseguimos obter do ambiente que nos rodeia. São momentos que balançam com o nosso (suposto) equilíbrio, assegurando-nos da nossa materialidade, naturalidade e autenticidade. Como pessoas somos autênticas, reais. Existimos no aqui e agora, e dificilmente nos damos conta da importância desta exatidão - como se, por existirmos no aqui e agora, fossemos circunscritos ao momento real.

Não são fáceis estas paragens. São verdadeiras e quase cruas, que levam o ser humano a interrogar-se sobre o sentido da sua continuidade. A Enfermagem pode ajudar. Aliás, faz parte das nossas especificidades profissionais a ajuda no ultrapassar destas paragens e destes balanços - tão próprios e tão profundos da pessoa que se encontra na plena vivência dos seus dias. Somos, como Enfermagem, matéria-prima e essencial para a colaboração nas interrogações dos sentidos e desvios, para o contributo da (re)organização do sentido e encaminhamento.

No último fim-de-semana foram-me feitas recomendações. Conselhos para a vivência e envolvência individual e igualmente para uma maior e melhor ajuda aos outros. Não deixo de ser Enfermagem quando me encontro em estado civil de sociedade, torno-me ainda mais Enfermagem quando o Outro me busca na rotina, nos espaços que circundam os nossos dias. E é essa a nossa função, quase tarefa e indissociável na profissão - a ajuda que é possível prestar quando os equilíbrios são balanceados pelos momentos que colocam tudo, e todos, em questão.

Foram recomendações de suporte, de responsabilidade e legitimidade. São recomendações transversais a todos os domínios da vida de cada um, porém com especial ênfase para aqueles que, de uma maneira ou de outra, vivem o agora de forma mais angustiada.
Afinal, é exatamente esse agora que é importante. Esse agora que faz parte já do passado e que pertenceu a um futuro recente. Viver nos espaços que constituem os nossos dias, viver plenamente esses espaços, como se fossem os últimos, para alavancar a nossa vivência no equilíbrio. Saber que fazemos mais, no tempo que nos é permitido ser.

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