Correio do Minho

Braga,

Nostalgia da Inocência

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2018-08-11 às 06h00

Escritor

Autor: Carlos Alberto Rodrigues

Há-de ser apenas um achaque, numa espécie de moléstia próprio da idade, mas acontece-me cada vez mais frequentemente ser acometido pela chama lenta da nostalgia. Muitas das vezes dou comigo a pensar sequer querer acreditar que a saudade esteja aqui: Dantes é que era bom e é mau que não se possa voltar para os bons tempos. Por outro lado o presente, talvez porque sendo pior (pendente da perspetiva pessoal) que o passado, é incontestavelmente superior ao futuro, já que me parece que tudo piora a cada dia que passa, numa espécie de letargia levada por uma certa morte lenta das nossas próprias espectativas. (Perdoem-me os mais otimistas, mas acredito que até esses tenham rasgos de lucidez para serem levados a concordar que o estado das coisas podiam estar muito melhores, ou que eles próprios se acheguem mais do que queriam dessa crua realidade que nos cerca dia a dia).
Será um contentamento resignado quando ouvimos dizer “antes assim que pior” que até se chega a acreditar que o estado das coisas podem piorar até ao momento final, em que até a morte é preferível.
Karl Marx escreveu um dia que a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Por mim, não sendo difícil, pelo lento passar dos dias e das notícias que nos chegam dos vários cantos deste mundo que já me pareceu maior, adivinhar como vai ser o nosso mundo (mais uma vez se repete a história) governado por loucos de ganância ávidos de poder e furiosos e déspotas que acreditava já não existirem Não hajam as devidas ruturas e vão ver…
Basta, se quiserem lerem ou relerem “1984” de George Orwell que está lá tudo, e fazer uma comparação com os tempos que por estas alturas vivemos. Aí, até prefiro retirar-me para uma espécie de exilio num universo paralelo criado pela minha mente em que esta realidade não passe de uma espécie de sátira e retorne à época onde guardo as velhas recordações de um tempo em que tudo parecia melhor: o da (minha) infância e, quero acreditar, na da maior parte de nós.
Posso até parecer precocemente envelhecido por esta tal moléstia, mas só saber que dessa forma posso retirar-me do desassossego deste nosso quotidiano, passar a usar novamente calções e andar descalço para sentir firmemente o chão que piso, correr por entre campos e searas sentir a frescura dos riachos que levam água pura e cristalina como a verdade que ainda me cerca momentaneamente ou o vento suave na face de menino, ou então sentir os pássaros bem perto de mim. Acaso quem sabe, até estatelar-me na relva e comtemplar mais uma vez o céu que me abriga nessa migração, o sol brilhar depois da chuva nas folhas da primavera da minha vida, que consegui, miraculosamente congelar naquela viagem que gosto de fazer até tempos saudosos da tal infância há muito tempo perdida para este novo conceito de presente, onde muitas vezes sequer quero estar e a que sou muitas vezes (mais que as desejáveis) obrigado a fazer parte como ator, ou se quiserem marioneta e ver impotente, o crescimento de um poder inatingível ao alcance apenas de mentes egocêntricas, malévolas e maquiavélicas. Por isso recuso-me a pactuar com a realidade de hoje. Antes prefiro cerrar mais uma vez os olhos porque sei que valerá a pena ver o meu filme desses momentos que tão bem soube guardar numa parte privilegiada das minhas memórias.
Antes quero fugir mais uma vez com os meus pensamentos e refugiar-me no colo de minha mãe quando pequeno ou nas mãos de meu pai num passeio por entre montes e vales daquele pequeno lugar que me viu nascer e crescer nos primeiros anos de vida para, depois, num ápice ver-me mudar para a cidade onde os anos passaram, onde criei maturidade e deparei com o pecado e os vícios que a inocência tão bem me ocultou lá longe, naquele tal pedaço de céu, que foi um dia a minha aldeia. É, por vezes é mesmo triste ser-se crescido, ter obrigações e compactuar com este corre-corre para não perder o ritmo nem o tempo. Acredito que muitos sabem do que estou a tratar porque também eles um dia tiveram a felicidade na celebração de cada Natal ou das férias que chegavam depressa em cada Verão das suas vidas.
Porque não fui o único a sentir esta magia da tenra idade que só a ruralidade consegue trazer. Descrevê-la como se de um postal se tratasse é tarefa fácil pela simplicidade estampada nas faces das pessoas no lento mas saudável passar dos dias atrás de uma enxada ou de um arado que havia de lavrar os campos férteis de felicidade. Cada amanhecer na eira onde borbotavam gotículas de orvalho nas manhãs mergulhadas em nevoeiro que depois se dissipava para dar vez à luz nascente de mais um dia de azáfama saudável num corrupio de leves e saudáveis sensações. Até o inverno, esse general que então ditava o fim da última estação, era bem-vindo e que convidava ao aconchego do calor que provinha da lareira sempre acesa e que aquecia a cozinha mas também o meu coração, numa reunião de anedotas e aventuras de outros tempos contadas pelos mais anciães cuja sabedoria o tempo lhes tinha oferecido como dádiva da sua existência e cujas agruras desse mesmo tempo souberam enfrentar. Enquanto lá fora como já há muito escrevia Augusto Gil, a neve batia de leve, levemente nas janelas e que fazia imaginar o longo e majestoso manto branco que cobria por aquelas alturas os campos e casarios da aldeia.
Depois havia as primeiras e inocentes paixões, daquelas que não chegavam a ferir o coração. Afinal o mundo era todo meu. A vida só agora desabrochara e eu estava lá para conferir essa felicidade. Tristezas ficavam para mais tarde se me permitem tamanha ousadia, por favor.
Porém como em tudo na vida há sempre a amargura por um dia se ter experimentado tamanha felicidade e hoje tudo é diferente.
Desapareceram as pessoas que mais amamos por que envelheceram e pereceram, as mesmas que nos sorriam a cada chegada a casa. Mesmo assim, continuo a reivindicar para mim esses momentos de saudade e de nostalgia mas confortáveis quando “acordo” para a realidade do dia que vai começar, já agora, no presente.
Hoje, finalmente sei-o, a vida afinal acontece tão depressa que urge celebrar cada ocasião como se fosse a última.

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