Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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O bolo negro de Louriga

A avestruz risonha que tocava Strauss

Conta o Leitor

2019-07-30 às 06h00

Escritor Escritor

Júlia Guimarães

O bolo negro de Louriga, em imagens e som que a televisão debita em mais um programa de exterior que no verão invade espaços. O pensamento emperrado e dolente. O jornal chega-me gentilmente à mesa pela mão da dona do café.
Se quiser eleger a sardinha doce de Trancoso vote 760 107 xxx... É um grande privilégio já poder estar aqui...estas, palavras de uma representante institucional do distrito da Guarda, de imediato abafadas pelo insistente e crescente refrão de fundo: “d. sancho um bolo divinal, um rei de Portugal”... se quiser eleger o d. sancho vote 760 107 xxx. Trinco um croissant, beberico um café que não chega a acordar-me e peço outro. O meu pensamento continua emperrado como que a ceder ao calor dormente do verão: nada. Transpiro.
A Guarda tem história, tem cultura, tem natureza...os cobertores de papa e o museu da tecelagem...como se faz um cobertor de papa.... Transpiro mais. Há coisas que não se conseguem explicar nas coincidências que geram, na multitude de sentidos, de significados.

Em quarto lugar, a flor de Escalhão...se quer eleger o bolo negro da Louriga ligue 760 107 xxx, para eleger...se o seu doce preferido é a flor de Escalhão ligue 760 107 xxx...
O computador novo e generoso, aberto sobre a mesa, corre e oferece-me um inteligente programa de texto, já o meu pensamento obeso de nada, abre-se a um vazio estonteante que nada me dá.
Os dois devíamos formar uma equipa tal qual piloto e co-piloto, nem que fosse em primeiro treino de trilha, de percurso, de estudo da pista de rally. Ele cumpre cabalmente a sua função, eu falho a cada momento a que me atribuí com medo de estragar o branco níveo da página que tão generosamente se me abre.
Experimento, carrego com cautela numa tecla. Uma primeira letra desenhada a preto estampa-se nobranco da página; mas é coisa de segundos... envergonhada, mais eu do que ela, carrego em outra tecla e ela, letra, desaparece do ecrã tão depressa como surgiu.

De novo, o branco alvo à minha frente, intimidativo e opressor. Ganho coragem e carrego em nova tecla, a letra que surge estampada a preto no ecrã branco parece olhar-me desafiadoramente ou eu a ela; seja como for, desta vez, ficamos a olhar-nos. Eu, pelo menos, não consigo tirar os olhos dela e, de tão apaixonada, inibo-me de carregar noutra tecla para que ela em companhia não me inspire o desencontro íntimo da palavra que formar, e depois o ciúme. Volto a apagá-la. Em todo o caso, acho que dei um passo: o terror que o branco me inspirava, passou a arrependimento. Fixo a página em branco que a máquina há muito abriu. Concentro-me ou, pelo menos, tento. Nada. Olho em redor, num reduto de esforço a tentar espicaçar os sentidos... nada ainda.
Onde um estímulo, onde O estímulo? Sempre ouvi falar da silly season jamais pensei que viesse para tomar assim conta de mim, transformada em educadora de infância e eu em criança em idade de creche... eu que apenas enceto uma birra comigo mesma que, a que encetei com o mundo não tem a sabedoria das palavras.

A propósito das palavras e porque tudo gira em seu redor, tento recordar quantas delas necessito para escrever o texto a ser publicado...julgo ter visto algures o imenso e assustador número 2000, mas já não tenho a certeza...de acordo com o que o inteligente programa de texto me faz a cada momento saber apenas possuo 642 palavras.
Engraçado, mutasse-se o 6 em um 9 - coisa que é até fácil de fazer e tanto nos pode confundir quando ao desenho do algarismo falta o sublinhado traço que tem a missão de lhe assinalar valor e ordem -, e teria 942, o ano tortuoso da Guerra, com a Europa ocupada e devastada e a recém ocupação de Paris e afinal de toda a França – ou não fora o regime de Vichy o regime fantoche a que de Gaulle se recusou servir -.
Uma história demasiado triste a da Europa central: Polónia... Checoslováquia... esta a ser entregue de mão beijada à Alemanha Hitleriana pela França e Inglaterra; a primeira, depois repartida entre uma isolada e adolescente URSS e a Alemanha. 942 e a Guerra agravada pela enorme falta de solidariedade entre os governos dos povos.

Diziam-nos então, os governos de cada um dos países como também ainda sempre nos dizem, que tudo faziam, fazem, farão para a nossa felicidade e bem estar...que nos aconteceria se trabalhassem para a nossa infelicidade e mau estar! (Eu avisei acima que na birra que encetei com o mundo me falta a sabedoria das palavras...). 1924 ano do putch e da prisão de Hitler; 1925, ano do julgamento e da escrita de mein kampf em que Hitler lançava mão do antissemitismo de vários escritores entre eles o violentíssimo Paul de Lagarde (terá alguma coisa a haver com a presidente do FMI que agora coloca o seu lugar à disposição?).
O meu computador diz-me que ainda faltam muitas palavras para alcançar as 2000; tenho cerca de 926 – ou o ano que, entre nós, dá inicio aos tempos lazarentos e Salazarentos! Acho que estou mesmo a precisar da silly season, porque tudo é demasiado pesado!

Desculpem aqueles que comigo perderam o seu tempo, tinha prometido a mim mesma escrever para o conta o leitor, a exercitar uma escrita que queria de maior rigor e disciplina. No meio de tudo isto, apenas me ocorre dizer que também eu quero fazer minha a frase da representante institucional do distrito da Guarda: é um grande privilégio já poder estar aqui...
Transpiro ainda.
Se o seu doce preferido é a flor de Escalhão ligue 760 107...
(Tenho agora 968 palavras, ou o ano em que Salazar caiu da cadeira). Viva a silly season!

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