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O bolsonarismo, um retrocesso civilizacional

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O bolsonarismo, um retrocesso civilizacional

Ideias

2019-09-14 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Neste texto abordaremos por serem pertinentes as opiniões de duas prestigiadas figuras brasileiras sobre Jair Bolsonaro e bolsonarismo e o Brasil actual. São eles: (1) Michael Lo?wy, sociólogo há muitos anos radicado na França e actual director de investigação emérito do Centre National de Recherche Scientific; (2) Frei Betto, frade dominicano, jornalista graduado e escritor. Para ambos o que está sucedendo no Brasil é um autêntico retrocesso civilizacional.
Michel Lo?we é reconhecido pelos seus estudos sociológicos, em particular, quanto a importância da necessidade de uma cada vez maior consciência ecológica para o futuro da humanidade. Exprime também as suas ideias sobre as causas e efeitos do avanço do populismo de extrema-direita no Brasil (e no mundo), as semelhanças com os regimes fascistas europeus da primeira metade do século passado, as inverdades da política ambiental do governo de Bolsonaro e a resistência social e política ao actual descalabro civilizacional. Para Lo?we, a esperança de mudança neste estado de coisas está na juventude.
Mas, em que termos o sociólogo entende a prática do governo de Bolsonaro? Segundo Lo?we, o que se está passando no Brasil é uma distopia, o contrário da utopia. Sendo assim, assiste-se a um crescendo de autoritarismo, de nepotismo e de uma verdadeiro retrocesso em termos de construção de uma sociedade desenvolvida, moderna e justa. Para ele, a ideia central do bolsonarismo é a de “exterminar” o inimigo, sendo esse, fundamentalmente a esquerda, as feministas, os indígenas, o Movimento dos Sem Terra (MST), etc. Ora, esse é um típico pensar de cariz fascizante que também preconiza que a única solução é a repressão.
Porém, o sociólogo indica que Bolsonaro ainda não possui um poder total, tem de negociar com a Câmara de Deputados, com o Senado e mesmo com as forças armadas. Isto, é apesar de tudo diferenciador dos fascismos dos anos 1930, para além do facto de ter sido eleito por via democrática pelos brasileiros, facto que para ele é o mais triste de tudo.
Lo?we observa ainda que muitos daqueles que foram levados pela trama bolsonarista estão se apercebendo aos poucos dos seus efeitos negativos. Assim, a popularidade de Bolsonaro tem vindo a descer muito e já se tem verificado manifestações populares de repúdio a política neoliberal extrema que quer impor. Manifestações a níveis sindical contra a reforma retrógrada da Previdência; de protecção aos indígenas; contra a desflorestação amazónica (onde em Agosto último se verificou um aumento de 90% de desmatamento face ao mesmo período do ano anterior) e de repúdio ao aumento de incêndios na Amazónia.
Lo?we considera que a questão do ambiente, ou da natureza, ou ecológica, se tornará mais e mais vital no século XXI, porque não é só uma questão de defender o meio ambiente, as florestas ou a biodiversidade. É uma questão de sobrevivência da vida no planeta. Sendo assim, esta tornar-se-á uma questão política central para qualquer projecto de mudança social. Por fim, afirma que tal mudança implicará no pôr em causa o modelo capitalista vigente, permitindo a construção de um novo modelo que designou de Eco-socialismo (uma inovadora interacção entre socialismo e ecologia).
Frei Betto, por sua vez, narra que com o bolsonarismo se dá uma naturalização do horror! Desta forma, elenca o que considera ser as dez intenções do bolsonarismo a longo prazo (o que dependerá e muito da percepção e resistência do povo brasileiro):
(1) Despolitizar o discurso político e impregná-lo de “moralismo”. Não têm mostrado qualquer preocupação com saúde, desemprego ou desigualdade social. Seu foco está mais na “moralidade” do que na racionalidade;
(2) Como acredita ser um predestinado evangélico tenta apropriar-se do Cristianismo e dar o seu cunho religioso enviesado ao povo brasileiro;
(3) Sobrepor o seu discurso, desprovido de bases científicas, aos dados consolidados das ciências, como na proibição de figurar o termo “género” nos documentos de Estado e de acolher a quem defende que a terra é plana;
(4) Afrouxar leis que possam dar ao cidadão a ideia de que “agora sou mais livres”, como conduzir sem habilitação, reduzir radares rodoviários, etc.;
(5) Privatizar o sistema de segurança pública e que os cidadãos de “bem” vejam facilitada a posse e porte de armas;
(6) Facilitar o lucro privado, por exemplo, desonerando impostos, criando subsídios aos grandes grupos económicos;
(7) Aprofundar a clivagem entre brasileiros, entre os do “bem” (bolsonaristas) e os do “mal” (todos os outros);
(8) Alinhamento acrítico e subserviência à direita mundial, nomeadamente aos Estados Unidos e ao governo Trump;
(9) Naturalizar os efeitos nefastos da desigualdade social e do desequilíbrio ambiental;
(10) Deslegitimar todos os discursos que não se enquadrem ao dele. Bolsonaro, por um lado, é sempre impositivo, de quem não admite ser criticado e, por outro, “dissemina o horror e vê em que se lhe opõe o fantasma do comunismo”, uma narrativa que a História mostra ser sempre igual em regimes autoritários de direita.?

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