Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Centenário do Caminheirismo (IV)

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Escreve quem sabe

2018-10-19 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Na primeira das quatro crónicas que dedicamos ao centenário do Caminheirismo, que mundialmente se comemora, afirmava-se: «a questão essencial que, no aniversário do centenário, isto é, hoje, se tem que colocar não deve ser virada para o passado, pois, bem ou mal, ele passou, a questão pertinente que tem de ser colocada tem de ser direcionada para o futuro».
Com naturalidade, focamos o nosso olhar sobre o percurso, quase centenário do Caminheirismo, no Corpo Nacional de Escutas, para conhecermos o que fomos e o que somos, isto é a nossa identidade. Hoje, em síntese, poder-se-á dizer que, abandonada a tradicional referência, já gasta e desacreditada, ao ambiente dos cavaleiros medievais e da távola redonda, emergiu o ambiente do Homem Novo: o Caminho, a Comunidade e o Serviço, o Peregrino – o Caminheiro tornou-se aquele que vai à procura dos outros, sendo um anunciador da Boa Nova. Mas é também o jovem que sabe o que quer, que procura olhar bem longe, porque é portador de sonhos e de esperança para a construção de um mundo melhor, marcado pelo reencontro com os homens, com a natureza e com Deus. É um combatente à maneira de Paulo «Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel» (2 Timóteo 4, 7). Sabemos que o tempo em que Jesus viveu também foram tempos de grande violência, mas foi Ele que nos “ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: «Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos»” (Marcos 7, 21)1.
Quando faço o exercício de olhar na minha “bola de cristal”, leia-se, fazer uma análise prospetiva, fico com a convicção profunda que o futuro dos caminheiros, nos próximos 100 anos, vai ser aquele que eles quiserem.
A nós, os adultos, que nos alegramos com o que vivemos e com as mudanças, reformas e progresso que realizamos, temos, neste segundo centenário, duas opções: ou queremos cristalizar no tempo contemplando a beleza do “nosso tempo”, ou queremos ajudar os novos construtores do futuro sem receio que também eles rejeitem, tal como nós o fizemos, algumas pedras que depois descobrirão que, afinal, eram pedras angulares.
Tenhamos a lucidez de Antoine Saint-Exupéry: «Se você quiser construir um navio, não convoque homens para juntar madeira, dar ordens e dividir o trabalho. Antes, ensine-os a se apaixonar e desejar o eterno e distante mar». Desta forma demonstraremos ter consciência que o futuro é aquele tempo que hoje se constrói, alicerçado no passado, é certo, mas sem pretender que este passado se mantenha como futuro. Como os nossos pais gostaram de viver no mundo que nós fomos construindo, confiemos também aos Caminheiros a construção do novo mundo onde nós haveremos de viver com felicidade.
Por isso, partilhemos com eles os nossos instrumentos de decisão, e porque não dizê-lo com simplicidade, os nossos instrumentos de poder. Desta forma, estaremos em perfeita sintonia com o pensamento que Baden-Powell expressou no livro O Caminho do Triunfo: «Nós, os velhos, que na nossa época procurámos fazer alguma coisa pela pátria que amamos, contamos convosco, gente nova, e esperamos confiadamente que continuareis. Cremos que ides fazer por ela o que é preciso e que, esquecendo o vosso caso pessoal, trabalhareis por ela também com todas forças.»,
No escutismo, a minha confiança é tanta no futuro do Caminheirismo que, ao pensar nos próximos 100 anos, quero terminar seguindo o conselho do Papa Francisco, evocando três expressões que ele recomenda para termos sempre presentes e que aqui, por força da temática e por necessidade pessoal, quero utilizar, tendo como destinatários os Caminheiros:
“Por favor” – continuem empenhados na construção de um mundo melhor, sendo felizes, contribuindo para a felicidade dos outros, como discípulos de Cristo;
“Desculpem” – por não ter sido capaz de estar tão presente quanto mereciam, por ter tido medo e por não ter respondido sempre com a prontidão e a dedicação que mereciam;
“Obrigado” – por terem sido incansáveis na vossa caminhada para vos transformares em verdadeiros cidadãos com uma vontade insaciável de Serviço gratuito aos Outros, ao Escutismo, ao País e à Igreja, agindo sempre à Luz do Evangelho.
1Mensagem do Santo Padre Francisco, para a Celebração do 50º Dia Mundial da Paz, no 1° de janeiro de 2017: A não-violência: estilo de uma política para a paz, Vaticano, 2016.

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