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O desejo de ter outra vida

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O desejo de ter outra vida

Escreve quem sabe

2019-02-24 às 06h00

Joana Silva Joana Silva

Uma das necessidades mais profundas do ser humano, que frequentemente ele próprio não reconhece é o ser admirado, como se um “herói fora de série” se tratasse, perante algo ou alguém. Quando se quer, e se deseja muito esta admiração que é conseguida por outras pessoas, pode desenvolver-se uma obsessão. Uma obsessão que implica acompanhar o que faz ou deixa de fazer, onde está, para onde vai, com quem está, o que veste, como fala, como anda, etc.. stalker, significa perseguir alguém. Existem stalkers nos mais variados contextos formais e informais da sociedade. Deduz-se à partida que existiu um problema que condicionou uma atitude ou ação (ex.: o termino de uma relação em que um dos membros do ex casal, não conformado/a), mas na realidade não é assim tão linear.

De facto, existe outras prespetivas. Já pensou nas pessoas que nunca foram incorretas ou que nada fizeram para lesar em que são perseguidas e desconhecem que o são? Sabia que esta situação pode acontecer com um colega de trabalho ou até mesmo um amigo, de forma “secreta”. De uma forma diplomática e não agressiva, pode-se dizer que são pessoas que seguem exaustivamente ou acompanham de forma intencional a vida de outras pessoas. Pessoas que tem baixa autoestima e são inseguras. Quando estão mais tristes tendem a reconhecer na outra pessoa, o quanto é “afortunada” pela vida. Criticam-se e culpam-se como se tivessem de ser castigados. E não raras vezes, apontam defeitos nas outras pessoas porque é mais fácil, do que reconhecer os próprios imperfeições e até carências.

Reconhecem e valorizam mais as conquistas do que os outros alcançaram do que as delas próprias e sofrem com isso. Sofrem com o “ter” que “eu não tenho” daquele grande amigo ou daquele que se mais odeia. Não obstante, grande parte do sofrimento emocional e da “necessidade de provas e mostrar” vem daqueles com os quais não se identificam ou de quem não há afinidade emocional. A “necessidade de mostrar” que também se consegue causa desgaste, emerge ao de cima as características menos positivas da personalidade e a pessoa nunca é feliz por mais que faça ou mostre. O prazer é momentâneo e evapora-se. Há quem queira muito e tenha inspiração em determinada pessoa como fonte de sucesso. Aqui o caminho a seguir é “limpo” de estratagemas pouco éticos e mais do que as pessoas que se encontra pelo caminho boas e más, o ideal é chegar ao cimo de forma correta. Há no entanto, quem queira “chegar cedo” e atropele tudo e todos.

Ninguém gosta de reconhecer que gostava de viver a vida da pessoa X, Y ou Z. Aceitar que sim, é um ato de coragem e meio caminho para solucionar o problema ou até bloqueio emocional. Pergunte-se o que faz falta na sua vida, que o faz procurar nos outros? Porque quando se procura algo nos outros, é um claro indicador de que não se está feliz. O primeiro passo para se libertar desta situação é reconhecer que tem um problema e reconhecer que está obcecado/a. É também procurar ajuda profissional, porque apesar de ser um problema “aparentemente inofensivo” exige intervenção terapêutica. Uma outra questão vai a sua autoestima? Provavelmente seria importante reavalia-la e potenciar sentimentos positivos de si. Sabia que quando as pessoas gostam de si próprias aceitam todas as suas qualidades e defeitos.

Não viva em função da externalização dos seus desejos em outros/as. É basicamente como dizer que, “se vê nos outros aquilo que gostaria de ter”, envolto em afirmações categóricas e afirmativas “ele é feliz!”, “Ele/a tem tudo”. Tem “aparentemente” aquilo que você gostaria a de ter, sendo essas certezas absolutas pouco claras e infundadas. Certamente essa pessoa que vê, pode não estar feliz e pode também ela rever-se num outro desejo numa outra pessoa da qual ela também segue socialmente. Você também tem o seu mérito e quem sabe se também não é admirado/a por alguém que de forma saudável lhe reconheça valor. O ser humano tem um plasticidade emocional para quando quer e deseja de ser, “ator” ou “atriz” em que socialmente interpreta a personagem mais adequada a fim de esconder a sua verdadeira natureza emocional. Nem tudo o que se vê… pode ser real.

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