Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Maio de 68 visto pela Braga católica

Sarrabulho e kizombada

Ideias

2018-04-29 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

No mês que está prestes a iniciar-se comemoram-se os 50 anos de um dos movimentos estudantis mais marcantes de sempre: o célebre “Maio de 68”.
Há 50 anos vivia-se um clima tenso na Europa e no mundo, que assistia com suspeita aos assassinatos de Robert Kennedy e Martin Luther King e às Guerras na Coreia e no Vietname. Por outro lado, a participação dos jovens na guerra, a situação caótica que caraterizava o ensino universitário, as evoluções técnicas que ocorriam, às quais o Homem tinha ainda dificuldade em acompanhar e, por fim, as dificuldades económicas e sociais da época, provocaram uma onda de contestação no velho continente.
A 2 de maio alguns estudantes e agentes da autoridade francesa envolveram-se em confrontos, resultando daí a ameaça da administração escolar em expulsar os estudantes revoltosos. Como consequência, os universitários da imponente Sorbonne, em Paris, apoiaram os seus colegas, dando origem a um movimento crescente de revolta social!
A sociedade francesa aliou-se aos estudantes, provocando a maior greve geral da Europa, com a participação de cerca de 10 milhões de trabalhadores! As revoltas foram de tal ordem que o Presidente da República francesa, General Charles de Gaulle, chegou a refugiar-se numa base da força aérea na Alemanha, durante algum tempo!
Os estudantes, porém, não se rendiam facilmente pelo que, para apaziguar os ânimos, a Assembleia Nacional Francesa aprovou por unanimidade, no dia 23 de maio, uma Amnistia apresentada pelo Governo para todos os estudantes envolvidos nos desacatos! No entanto, logo no dia seguinte, ocorreu novamente uma manifestação violenta, no “Quartier Latin”, em Paris, tendo provocado mais de duzentas pessoas feridas.
As grandiosas manifestações de maio e junho de 1968 tiveram a participação ativa de vários grupos juvenis, entre os quais se destacam a “União da Juventude Comunista”; os “Comités Vietnam de Base”; o “Comité de Ligação dos Estudantes Revolucionários”; a “Federação dos Estudantes Revolucionários”; o “Odeon” e o “Movimento 22 de Março”.
A revolta dos estudantes não ocorreu apenas em França, tendo-se replicado em vários países. Na Alemanha, o porta-voz da Oposição, Rudl Dutschke, foi vítima de um atentado político. Por sua vez, milhares de estudantes revoltaram-se nas maiores cidades alemãs e impediram a saída de jornais pertencentes à casa editorial de Alex Springer, sediada em Berlim, e que tinha criticado violentamente os estudantes. Estes pediam uma reforma universitária, tendo conseguido associar uma parte da população aos seus protestos.
Importa ver como em Braga, profundamente católica, esta manifestação de estudantes foi vista. Assim, o jornal “Diário do Minho”, na sua edição de 5 de maio de 1968, referiu que os estudantes da Sorbonne “em lugar de estudar, como lhe competia, se preocupam com problemas que nem sequer lhes tocam de perto como por ex. a guerra do Vietname”! Perante isto, os estudantes destroem carros, lojas, móveis e provocam o caos nas ruas de França!
Mas o jornal referiu ainda que nas cidades universitárias de França as raparigas também desempenhavam papel importante nas revoltas, pois, pasme-se, exigiam “a «livre circulação de sexos» nas cidades Universitárias”! Estranhava-se este comportamento das raparigas, pois “as meninas desejariam poder receber os rapazes a qualquer hora do dia ou da noite”! Noutras cidades de França, Espanha ou Alemanha, os estudantes protestavam porque as “autoridades universitárias não distribuem gratuitamente pílulas anti-concepcionais”!
O “Diário do Minho” informava ainda que os estudantes da Europa e dos EUA protestavam, unindo-os um laço em comum: “A Guerra no Vietname”, facto que causava espanto, pois “Pelos vistos, desejariam que os americanos não usassem das armas deixando o exclusivo desse uso aos vietcongs, chineses e russos, e todos quantos, no mundo comunista, só conhecem uma força e uma «paz»: a das armas!”.
Depois de mais de um mês de ocupação da Sorbonne, que se tinha iniciado a 13 de maio, constou-se no exterior que dentro da universidade tinha sido cometido um crime, que o estudante Barbier tinha sido esfaqueado e por essa razão a polícia decidiu evacuar as instalações universitárias. No dia 16 de junho de 1968, um domingo, uma força policial de cerca de 26 mil homens entrou na Universidade e desocupou as instalações universitárias.
As violentas manifestações de 1968 foram tema de conversa de um ex militar francês, na casa dos 60 anos de idade, inteligente e culto, que explicou nas escadarias do Teatro Odeon, em Paris, a um grupo de jovens, que estes não devem esquecer-se do papel determinante que o General De Gaulle desempenhou na história de França, principalmente na criação da paz, durante e após a terrível Segunda Guerra Mundial.
Para esse francês, a história de um povo é feita de momentos como os protagonizados por De Gaulle e nenhuma nação os pode esquecer, dando então o exemplo dos portugueses que, apesar de ser um pequeno povo, falam da sua história com emoção e orgulho!

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