Correio do Minho

Braga, terça-feira

O Mundo precisa dos moderados

Dar banho às virgens

Ideias

2018-10-11 às 06h00

José Manuel Fernandes

O ódio, o radicalismo, o maniqueísmo e o protecionismo crescem e alastram à escala global. Não são de esquerda nem de direita, mas são da extrema esquerda e da extrema direita. Um ditador é um ditador, quer seja de esquerda ou de direita. No entanto, há uma predisposição de algumas “elites” e dos meios de comunicação social para branquear a ação da extrema esquerda. Estou certo que, se o ditador Maduro tivesse sido convidado para falar no evento “Web Summit”, a extrema esquerda acharia bem! Mais: se tivesse sido vetado e impedido de falar, isso teria sido uma atitude fascista, contra a liberdade de expressão. Maduro não é mais democrata que a Marine Le Pen! Mas Marine Le Pen foi desconvidada para falar na “Web Summit” depois da pressão dos arautos da liberdade.

No Parlamento Europeu assisto, já habituado e sem nenhuma admiração, a que a esquerda radical (leia-se PCP e Bloco de Esquerda) vote com a extrema direita em mais de 90% dos votos. Tal não acontece só nas questões económicas e orçamentais. Recentemente, o PCP votou no Parlamento Europeu ao lado da extrema direita, não acompanhando a crítica à deriva populista e nacionalista que coloca em causa o Estado Direito e a liberdade de expressão na Hungria.
Apesar de ser líder mundial na defesa da democracia e da liberdade, na União Europeia há derivas e ataques a valores que é preciso combater.

Ao longo do último ano, foram já assassinados em países da UE três jornalistas envolvidos na investigação e denúncia de casos de corrupção e desvio de dinheiros públicos com envolvimento de políticos e líderes de governo: Bulgária, Eslováquia e Malta. A situação é igualmente problemática na Roménia, onde o governo socialista quis suavizar leis penais anti-corrupção e reforçar o controlo sobre o sistema judicial. Se fossem todos governos de direita, o que se estaria a dizer? Nestes casos, porque é que a esquerda, silencia-se?
Em geral, há enorme tolerância e complacência em relação à esquerda. Se José Sócrates e António Costa fossem do PSD, a esquerda consideraria que nunca António Costa poderia estar a primeiro-ministro, até porque, para além de não ter ganho as eleições, fez parte do Governo de José Sócrates.
Nós, os moderados, temos de, pelo menos, estar a caminho da santidade e muito próximos da beatificação.

Se perguntarmos a um francês quem é protecionista, defende a saída do país da Zona Euro e se intitula como o verdadeiro e único defensor dos direitos dos trabalhadores, a resposta será: Marine Le Pen. Se fizermos a mesma pergunta em Portugal, haverá hesitação entre Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.
Em muitos casos são os radicais de um lado que “puxam” pelos radicais do extremo oposto. Repare-se na imigração: quando uns dizem “portas totalmente abertas” ou outros dizem “não entra ninguém”. Ambos crescem radicalizando-se e alimentando-se mutuamente.
Os extremos de esquerda e de direita colocam todas as culpas no “outro”, num inimigo externo e, concretamente, na UE que pretendem destruir. Algo que, muitas vezes, é acompanhado pelos líderes moderados, quando se sentem acossados e procuram passar a culpa para Bruxelas. O que é bom é nacional, o que é mau é europeu!

Até o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, veio insinuar, em entrevista à televisão, que até gostava de baixar o IVA da eletricidade, mas a UE não deixa! Acontece que o IVA da eletricidade no Reino Unido e em Malta é de 5%, no Luxemburgo 8% e na Itália 10%. Para além disso, se António Costa quisesse baixar o IVA, pediria à Comissão Europeia e esta teria três meses para se pronunciar. Acontece que António Costa não pediu!!!! A situação não é nova e acontece cada vez que aprova um orçamento com a mensagem de que até queriam dar mais aos trabalhadores e à função pública, baixar impostos… mas depois de uma longa e “árdua” discussão com as instituições europeias, não conseguiram mais. Dizem que é a “Europa” que não deixa e, assim, pode ser usada como mais um falso inimigo externo que vai servindo até os moderados!

Os extremos ora crescem à direita, ora à esquerda. No Brasil, temos a extrema direita a crescer e o risco enorme de Bolsonaro vir a ser o próximo presidente. Uma personagem xenófoba, que ataca as minorias – o que, diga-se em abono da verdade, não costuma acontecer na extrema esquerda – e sem demonstrar perfil e competência para o cargo. Para a extrema esquerda, a culpa é sempre dos outros. Não sei como é que podem culpar mais de 49 milhões de brasileiros! Será que viraram todos fascistas? Vão culpar as redes sociais?
Que fique claro: nunca votaria num candidato da extrema direita ou da extrema esquerda.
À escala global, os extremos vão crescendo e vão-se alimentando, colocando as democracias em perigo. O mundo está cada vez mais perigoso e a precisar dos moderados… competentes e capazes de assumir responsabilidades.

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