Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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O novo acordo ortográfico

Quem fez o trabalho de casa?

Ideias

2014-09-26 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Não nos sentimos nada confortável com o tema em questão, e a grande verdade é que não esquecemos a nossa primeira professora, uma regente simpática mas exigente que nos ensinou as primeiras letras num velho posto escolar. Que nos obrigava a escrever um português sem erros, a nossa e amada língua que agora, diga-se, graças a um acordo(!?) inopinado de cariz político ou outro jaez mas de total estultícia, aliás por muitos repudiado e não aceite, vem sendo “torpedeada” por uns tipos que se apresentam como “escritores” mas a quem é de reconhecer a honestidade de, não enganando, exarar no fim dos seus “escritos” que o texto está conforme ao novo acordo ortográfico.

Por causa das dúvidas, claro, e para que ninguém tenha razões ou motivos para pensar mal de suas inteligência, dotes literários, conhecimentos linguísticos, cultura e saber em termos do português escrito, aliás uma língua românica em que não é viável esquecer suas origem, etimologia, expansão no mundo e ... sua provecta idade. A merecer aliás todo um respeito mesmo de rapazelhos “armados” em sábios professores e em sagazes políticos de avançadas e vanguardistas ideias.

Não se tendo quaisquer pretensões, continuamos no entanto a enumerar-nos como um dos muitos “rebeldes”, “antiquados” ou “reaccionários” da nossa língua, quiçá um dos muitos “coroas” seguidores do tradicional português que aprendemos e nos ensinaram há mais de 70 anos, ainda que admitindo toda uma natural evolução e as naturais sequelas do nosso parentesco com os muitos “brasis” e “alapardadas” imitações e mistificações da língua portuguesa disseminadas pelo mundo, e seus efeitos.

Na realidade ainda não nos explicaram convenientemente, convencendo, as “razões” pelas quais teve de ser Portugal a pôr-se de cócoras em tal acordo, machucando e alterando a sua original, vetusta e tradicional escrita, e a ter de adulterar a sua língua face ao “pretoguês” e “brasileirês” dos países que dizem usá-la . Aliás, não sendo claras e de todo reconhecidas incontornáveis vantagens no acordo, não se compreendem os atrasos na sua aplicação por outros países e a nossa recorrente “teimosia” em o respeitar.

O “fato” (que não é roupa nem um terno ) é que nos sentimos defraudados quando enfrentamos os escritos hoje apresentados como conformes a tal acordo, embora entendendo que algumas palavras adoptadas, tornadas mais doces e “amaneiradas” como “ator” e “diretor” e outras, de modo nenhum perturbarão a “virilidade” e a “masculinidade” dos usuais “actores e directores”que vamos tendo nos palcos da política ou outros. Sempre sem dificuldades em falar, declamar, perorar e aldrabar com os sotaques e particulariedades da múltipla e diversificada “legião” do português linguístico esparramado pelo mundo, em que a doçura de umas palavras, o arranhado de outras, o anasalado e “mastigado” de algumas outras, muitas vezes mescladas e adulteradas por sons estranhos, díspares, truncados, roncados ou titubeantes, acabam muitas vezes por desaguar numa delirante, difícil e “saltitante” algaraviada com a pronúncia a esgueirar-se num complexo confusionismo de dificultosa percepção.

Aliás chegou-se a um certo “descalabro” literário tal o volumoso número dos que, sem qualquer pudor e vergonha, teimam e se “entretêm” agora em afirmar-se como “escritores”, muitas das vezes publicitados e só conhecidos graças aos media, concluindo-se que escrever português deixou de ser dom ou talento de alguns para se transformar em apanágio e loucura de muitos. Alguns insconscientes, outros loucos, e ainda muitos outros estupidamente “corajosos”, sem vergonha, oportunistas e “interesseiros”, como aliás claramente resulta da “multiplicação” dos livros e outros “escritos”, sendo de pasmar o atrevimento e a ousadia de tais “escrevinhadores”, esparramadas em todo um inquestionável desvalor e incontornável falência.

Para se escrever português, diga-se, não basta saber “garatujar ou amacacar” uma língua já “machucada” com os efeitos de rotineiros desabafos, tolas exclamações, patetas “gosto” e “delirantes” estórias transpostas num qualquer facebook ou twitter ou os comentários apostos a fotos no Instagram, sendo de todo incontornável que o linguarajar português vem sendo “alimentado” e perturbado pelas cabalística e sinalética das mensagens de telemóveis, e todo um truncar e escamotear de palavras e frases.

Aplaudindo o exarado em “Tento na Língua” por João Luís Barreto Guimarães (JN.9.6.14), anotámos os seus considerandos quanto ao facto do Secretário de Estado das Comunidades ter defendido a importância de vincar a Língua Portuguesa no Mundo e as suas referências às falação e frases de alguns políticos e outros, e registámos a sua observação de que “um antigo primeiro-ministro que alinhou um textículo prolixo sobre a tortura foi logo convidado a abrir um festival literário! Experiência a torturar-nos não lhe falta!”.

Gostámos sobretudo da palavra “textículo” (com ou sem acordo ortográfico?) e das notas que acrescentou sobre as ”coisas castiças” que os políticos vêm fazendo com a língua. A deles, claro!...

A nossa, essa há que defendê-la a todo o custo já que não temos entre nós o saudoso Vasco Graça Moura e o juíz Rui Teixeira teve de dobrar a cerviz face a um processo disciplinar, ou algo parecido, por mandar reescrever certo relatório com a ortografia antiga como consta do despacho que gostosamente anotamos: « Nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, atas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterável até ordem em contrário».

Tramou-se, permita-se-nos a expressão, mas o que devia ter feito era invocar o acordo e toda uma uniformidade de linguagem e usar uma muito conhecida expressão brasileira mandando-os “apanhar na bunda”, a eles e a quem teve a infeliz ideia de querer uniformizar a língua portuguesa, e ficar-.se na sua. Mas sem pôr de lado a hipótese de a “sotaquear” e “enriquecer” com todo um vocabulário caxineiro à mistura com os calões e a peculiar gíria da linguagem em uso em certos bairros típicos alfacinhas e tripeiros.

Começando por falar bué de outras coisas, outros “acordos” e “novidades”, e ainda dos “coroas” que teimam em viver e a ter influência no país, e também daqueles tipos baés, de figura ridícula e porte discutível, agraciados em 10 de Junho, bem como dos que vêm vivendo das governação e política, tornando o país numa barra bem pesada para os portugueses. Sem se esquecer, claro, que muitos deles subiram e sobrevivem graças às caronas de torcidas bem retorcidas e de muitas e conhecidas galeras, sem omitir o nome de muitos dos jagunços que fizeram deste país um verdadeito pantanal.

Claro que num momento em que ainda está bem fresco todo um mundial de futebol, com as decisões, críticas, comentários, manifestações, greves e tumultos que se conhecem e ocorreram, é natural que nos sintamos ainda um pouco abrasileirado e que, apesar do “calor” e da humidade em certos gramados, é impossível esquecer e deixar de falar na “frescura” de certas caras e bundas, pintadas ou não, com ou sem acordo ortográfico, e muito menos dos muitos “boieiros” que cá e lá vêm fazendo pela vida.
Mas viva o português sem fronteiras!?!......

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