Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O padre vedeta e o castelo dos tiroleses

Encontrão Ambiental

Ideias

2010-05-17 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Numa altura em que está ainda bem presente na memória dos portugueses a recente visita do Papa Bento XVI ao nosso país (efectuada entre os dias 11 e 14 de Maio), vamos recordar um padre minhoto que, na sua época, teve grande projecção social.

Tudo se passou na primeira metade do século XIX com António Carmo Velho de Barbosa, um religioso beneditino que nasceu em Barcelos em 1789. Talvez inspirado pelo ano do seu nascimento (ano que correspondeu à célebre Revolução Francesa) Velho de Barbosa veio a afirmar-se na sociedade portuguesa pela forma firme e violenta como defendia as suas ideias.
A vocação religiosa de Velho de Barbosa foi revelada desde cedo, ao ponto dos seus pais o colocarem no Mosteiro de Tibães, onde viria a “adquirir o hábito” (1) em Junho de 1805, “professando um ano depois” (1), quando se encontrava com 17 anos.

Os anos de juventude de Velho de Barbosa foram marcados, inevitavelmente, pelas grandes convulsões sociais e políticas, que a política expansionista de Napoleão Bonaparte espalhou na Europa. Foram os anos em que Napoleão ameaçou e atacou Portugal. No ano em que os exércitos de Junot entraram em Portugal, pelo norte do país (1809), Velho de Barbosa encontrava-se a estudar Filosofia no Convento de Rendufe (2). Perante a aproximação dos militares franceses, este jovem não hesitou em juntar-se ao povo e aos militares portugueses, que tentavam desesperadamente combater as poderosas forças militares francesas. A brilhante colaboração militar dada pelos estudantes do Mosteiro de Rendufe, fez com que este mosteiro ficasse conhecido, a partir desse momento, pelo “castelo dos tiroleses”.

Depois de sobreviver aos poderosos franco ataques, Velho de Barbosa regressou ao Convento de Rendufe, onde retomou o seu curso de Filosofia. No entanto, a participação na defesa de Portugal, aquando dos mesmos ataques, criaram em Velho de Barbosa um sentimento de desejo militar, que frequentemente o levava a comportamentos nada condicentes ao seu “estatuto” de estudante religioso.

Perante os comportamentos absolutamente severos do prelado do Mosteiro de Rendufe, Velho de Barbosa não hesitou em incentivar os seus colegas estudantes a sublevarem-se contra o seu superior. Liderando, então, um exército de estudantes, Velho de Barbosa desencadeou um conjunto de revoltas e de ataques, dentro do próprio mosteiro, que foram de tal forma violentos, que os responsáveis do mosteiro sentiram-se na necessidade de chamar os militares, que se encontravam no Quartel, em Braga, para controlarem Velho de Barbosa e os seus colegas estudantes!

Não se sentindo seguros com os ataques dos jovens estudantes, os responsáveis pelo Mosteiro de Rendufe resolveram castigá-los, distribuindo-os por vários mosteiros e conventos. O destino de Velho de Barbosa foi Santo Tirso.

Em 1819 Frei Velho da Costa foi escolhido para prior da abadia de S. Bento da Vitória (Porto), onde permaneceu até 1828. No ano seguinte, foi nomeado “pregador régio”, cargo que ficou a dever às influências de uma freira sua conhecida.

O agitadíssimo clima político que se vivia em Portugal, onde as lutas entre liberais e absolutistas se revelavam cada vez mais intensas, associadas a comportamentos violentos de Velho de Barbosa, contribuíram para que este fosse parar à prisão, em 1829.Este padre, defensor dos liberais, foi então preso e encerrado na Cadeia da Relação, no Porto, seguindo posteriormente para o Mosteiro de Paço de Sousa, onde ficou sob rigorosa vigilância. Em 1833, foi transferido para Arnóia de Basto, uma vez que o Mosteiro de Paço de Sousa foi transformado em hospital militar.

Quando foram abolidas as ordens religiosas (3) Velho de Barbosa regressou ao Porto, agora como pároco da igreja de Valbom. Mas em 1839, este padre barcelense envolveu-se em forte polémica com os religiosos portuenses, sendo suspenso das suas funções pela rainha D. Maria II.
Em 1850, este revolucionário padre foi para a abadia de Leça do Balio, onde viria a falecer em 5 de Fevereiro de 1854, quando se encontrava com 65 anos.

Para além de valente militar e destacado religioso, Velho de Barbosa também se dedicou à investigação, tendo escrito várias obras, algumas delas de grande importância para a historiografia portuguesa da primeira metade do século XIX. Para além disso, colaborou com o jornal “A Vedeta”. Ora, pelo facto de ter colaborado neste jornal, associado ao seu peculiar perfil, Velho de Barbosa ficou conhecido na sua época pelo “Padre Vedeta”.

1) - “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, Vol. 4, Pág. 189;
2) - O Mosteiro de Santo André de Rendufe é um mosteiro situado na freguesia de Rendufe, concelho de Amares. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1943.
3) - A extinção das ordens religiosas em Portugal ocorreu a 30 de Maio de 1834, cuja promulgação foi efectuada por Joaquim António de Aguiar, que por esse facto ficou conhecido por 'Mata Frades'.

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