Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

O peniquinho do céu

O direito a ser criança

Conta o Leitor

2019-07-04 às 06h00

Escritor Escritor

José Cruz

Havia de chover, resmungava Hilário Morais de canto em canto, e vasto era o andar para lhe permitir sermão e missa cantada. Num lampejo de morbidez aquietou-se na varanda, chegado à frente de combate, faceando o inimigo. Deixou-se abater num cadeirão reclinado de jardim, emoldurado por chamejante buganvília e uma fieira de floreiras de balaustrada, com fetos e sardinheiras.
Todos os anos era a mesma agonia, que piorava, por ajustes de intolerância – pobre de quem quer sossego e reside a meio da artéria mais agitada da cidade. Mas o destino apronta estas desditas, cozinhando o que só ao mal servido custa a engolir.
De nariz a norte, farejava tormenta sem prenúncios. Nada que ele não remediasse. O céu que comandava enegreceu, umas nuvens bojudas, descomunais, quais zepelins de terror, baixaram cabos a quanta árvore e torre sineira havia entre S. Victor e Maximinos.
Um dilúvio malévolo estaria por instantes, sem que o vulgo do mundo inferior desse fé. Hilário inspirou fundo e sorriu, na antevisão de bíblica provação. Ficção perfilhada por realidade, o Universo era um mil folhas, um multiverso de realidades paralelas com portais permeáveis – choveriam, em Braga, águas do outro mundo, sem anúncio, sem defesa.
Fiat Aqua! Um trovão, relâmpagos que riscam e iluminam com os primores de ornamentos de romaria. Água a cântaros. Ei-la, a velha rua das águas em plena recuperação de real nome. Um lençol aquoso de palmo de grosso em cinco minutos de bênção celeste, dobrado e redobrado em menos de nada. Uma cortina pluviosa de empalidecer a cascata do Zambeze, multidões engolfadas no enxurro, a meio corpo, esbracejantes, confusas, temerosas de que uma rulote de farturas as abalroe no arrastão desenfreado até ao caneiro fluvial. Um toque de consciência ou cinismo: alguns afortunados descendo a torrente em jangada improvisada, ou surfando em bancas e contraplacados de stand.
E, na Ponte, um sururu entre santos e divinos: Cristóvão, que ao Jesus Menino demanda milagre, que resgate quanto pena e pinga; o Salvador que replica não ser chegada a hora de milagrar, que se de tais águas fizesse ele vinhos, perigariam os foliões à mesma, mas por bebedeiras compulsivas, e que graças se pedissem ao primo, se o seu dia se celebrava.
Anda a diligência de Anás para Caifás, quando risadas da varanda do segundo o puxam à realidade. Nos limiares da loucura, Hilário alombava com o fragor da cidade, encaixando o azedo dos suores, o vomífico das frituras, a exalação a mijeiras; com a sua dose de esforço, ainda era capaz de selar ouvidos ao rumorejar humano, à revoada das bombarias, às gaitadas de S. João para trás, S. João para diante, à instalação sonora que, do Arco à Srª-a-Branca, do Largo dos Penedos à Ponte, anunciava novidades intemporais, mas nada o vacinava contra casquinadas a menos de dois metros de si, no prédio-prisão que tamanha tortura lhe trazia na noite do baptista.
E fosse ele uma gargalhada, mas não – uma, e mais outra, e mais outra; umas aos saltinhos, outras em voo de albatroz. E havia das finas e das grossas, das melódicas e das relinchadas, mais daquelas de quem ri, sem o sentir, sem saber porquê, e estas tiravam-no do sério. O mundo de Hilário Morais era um inferno. Sairia de casa, pronto. Talvez conseguisse recuperar o sonho de um dilúvio. Atravessaria a cidade, subiria a Montariol, para que de alva contemplasse a devastação. Os franciscanos haveriam de ter comida em armazém, muito para lá das parcimónias do hábito. Na empena do prédio, pararia no oratório do Senhor da Aflição: que chovesse, bom deus!
No andar de cima, em roda alargada de amigos, riam da rábula do Alberto Malheiro, anestesista reputado na cidade e arredores. Tomando o pulso à agitação, entre bebericos e charlas com semanas de atraso, apercebera-se, o Malheiro, das precipitações de um vendedor da casta dos clandestinos.
Nos comerciantes de rua, havia os oficiais, de banca sólida e taxa camarária saldada, e os piratas, de lençol no chão e mercadoria ao nível dos pés. Entre stands de africanos, no vão de um metro de lado, determinado por um hibisco de porte modesto, um cigano havia montado estaminé de casacos de malha, com duas peças penduradas em cruzeta na ramagem baixa da árvore ornamental. Alguém que ao feirante se chega, sinalizando-lhe a aproximação de um fiscal, com a multa da praxe e o confisco dos artigos, como castigo acessório, por óbvia contrafacção. Lençol recolhido, trouxa às costas, e ala a todo o pano. Nas pressas, fica o mostruário para trás.
Num rompante, o Malheiro salta positivamente da varanda, precipita-se porta fora, arrebatando em caminho um loirito de seus quatro anos, filho de amigos. Chega à rua e os casacos lá estão. Toma-os em mãos, agita-os em suporte a pregão brilhante, aciganado, de belo efeito.
- Um euro, um euro, é um luxo, um eurinho…
Uns que passam e olham, outros que param e comentam. Na varanda não têm como ouvir o que o pregoeiro pode acompanhar. Malheiro foi reconhecido por incrédula passante, contra as reservas rotundas do marido. Achas que o falso cigano lança à fogueira, incitando o miúdo, Diogo, que tem a seu lado:
- Filho, mostra o casaquinho à sinhora. Anda, mori, leva à sinhora.
Bem-mandada, a criança esboça dois passos em direcção ao casal, executando, estes, manobra contrária. Pára, o Diogo, abala, o casal, gesticulando, de olhos capturados por dúvidas e confirmações goradas.
A noite está ganha. Ó meu rico S. João, sou cigano ou talvez não, glosa em surdina. S. João é festa, e a festa, a verdadeira festa, é o que conseguimos aproveitar do irrepetível, ou provocar. A incredulidade da mulher, cliente que tivesse dele sido, ou acompanhante, vale a noite.
Desembaraça-se dos casacos, presenteando-os a duas garotas que apanha ao alcance, desfazendo incredulidades com acenos e sorrires foliões.
Cruza-se, à entrada, com o vizinho do primeiro:
- Bom S. João, – despende-lhe.
- Havia de chover, mas é – resmunga o Hilário.
No patamar do segundo abre-se a porta, para recepções e comentários. Chovem as felicitações. O que foi, perguntam-lhe, por conta do ar aparvalhado.
- Cruzei-me com o teu vizinho, desejei-lhe bom S. João, e não é que o gajo me responde, vai-te foder, Noé.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

29 Agosto 2019

Dor

28 Agosto 2019

As batatas fritas

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.