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O que é que a Europa tem que ver connosco?

Jornais

O que é que a Europa tem que ver connosco?

Ideias

2019-06-03 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Em rescaldo de mais um ato eleitoral, as Europeias, a grande conclusão é que a grande vencedora continua a ser a abstenção. Não, não me venham dizer que foi a preguiça, ou o sol ou mesmo a praia que fizeram com que mais de dois terços dos eleitores não fossem votar. Não! Não foram votar porque não quiseram. O que até parece estranho, uma vez que cada vez mais a nossa vida é regida sob regras emanadas por Bruxelas, em tantos aspetos. De onde chegaram e chegam milhões de euros em fundos estruturais.

Então porque é que todos estes portugueses não quiseram votar?
Eu acho que não é difícil perceber que há duas grandes razões por detrás deste fenómeno: uma chama-se “classe política” e outra “a (distante) União Europeia”.
Foquemo-nos primeiro na análise daquela primeira causa: os políticos. A maior parte dos portugueses desconhece quem os representa no Parlamento Europeu; aqueles que têm sido eleitos têm entendido o mandato à margem de qualquer prestação de contas, ou de informação junto dos eleitores. Vejam bem se não é assim: os portugueses eleitos, salvo duas ou três, quatro, raras exceções, nem sabemos quem são e, durante 5 anos “desaparecem”, na opinião pública corre o boato de que vão à procura de um “tacho”, boas condições remuneratórias e “boa vida”. Ninguém ouve falar do que é que eles fazem por lá, nem o quão estão envolvidos na missão em que estão investidos, ou se são minimamente influentes. Só ressurgem nas campanhas eleitorais, de 5 em 5 anos. Ninguém vê credibilidade e sentido nesta representatividade.

E porque é que podemos afirmar que a União Europeia é também ela culpada? A União Europeia é demasiado “silenciosa e distante”, sem intervenção nas comunidades nacionais e sem interlocução com os cidadãos. É vista pelos portugueses mais como um banco. Uma fonte inesgotável de euros. Ninguém sente a força da União enquanto entidade supranacional.
Os palcos políticos nacionais continuam a ser os palcos políticos de referência. Os eleitores não votam em partidos políticos europeus, votam nos partidos que sempre associaram ao seu território nacional, desconhecendo depois como é que se completa o xadrez europeu, tendo em conta as diferentes tipologias de partidos espalhados por toda a União. Por conseguinte, a abstenção continua a ser elevada quando comparada com as eleições nacionais. E mesmos os eleitores que votaram não o fizeram a pensar que estavam a escolher o presidente deste ou daquele órgão da União (nem sabem bem a destrinça entre eles!) ou os deputados do Parlamento. Votaram por referência aos partidos nacionais que sobejamente conhecem e a pensar no jogo político partidário nacional: o que é que o partido do governo tem feito, como é que os partidos da oposição se têm posicionado. Ora isto nada tem a ver com a União Europeia e com as finalidades do ato eleitoral de há uma semana atrás.

Por outro lado, mesmo que um eleitor queira focar-se no que verdadeiramente lhe era pedido, nas eleições, certo é que olha para a Europa e não vê o que esta possa dar de novo: paz, liberdade e livre circulação são dados adquiridos, nada parece especialmente motivador. E é causa da abstenção. E é causa dos ganhos dos partidos eurocéticos (ganharam no Reino Unido, França, Itália e ficaram bem posicionados noutros países).
A União europeia continua a carecer de uma forte legitimidade democrática. A soberania europeia não existe. Assim como não existem cidadãos europeus; os cidadãos são nacionais. Eu sou português, o(a) caríssimo(a) leitor(a) será português, brasileiro, francês ou outra nacionalidade. Todos nós reconhecemos a nossa identidade, história, cultura e tradição. Nenhum de nós reconhece este sentimento, de pertença, na União Europeia. Nenhum de nós interioriza o conceito de cidadania europeia.

Não obstante, pois, o esforço da União Europeia, com as suas políticas e construções jurídicas ou económicas, com o aumento da representatividade e dos poderes do Parlamento Europeu de forma a colmatar o défice democrático, certo é que continua a faltar o essencial: o sentido de identidade e pertença. De verdadeira UNIÃO. Encontrar esse equilíbrio e aperfeiçoar os mecanismos de representação e legitimidade democrática será sempre um trabalho inacabado, mas sem o qual a União Europeia corre o risco de se tornar uma ideia (demasiado) distante dos cidadãos. E quanto mais distante, mais débil e vulnerável. O que, paradoxalmente, não é o que pretendemos.

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