Correio do Minho

Braga, terça-feira

O real e a sua denominação

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Voz aos Escritores

2018-09-28 às 06h00

José Moreira da Silva

Estou sentado num rochedo. Na minha frente, vejo as ondas do mar, alguns barcos ao longe, ouço marulhos intermitentes e cheiro o odor característico das algas e do mar. Na areia quente, o sol entretém-se a desenhar colorações nos corpos quase nus. Atrás de mim, dunas estendidas, vegetação diversa perfeitamente adaptada às condições do lugar, árvores cujo nome não distingo neste momento, casas de diversa tipologia e, mais longe, campos onde se produzem frutos e legumes. Este lugar chama-se Apúlia, e nele nidificam aves de múltiplas espécies.

No exercício da minha função de professor, escritor e poeta, repito com frequência este ritual, que consiste fundamentalmente em sentir, emocionando-me, o que é ôntico em cada ser, em cada substância, começando, naturalmente, pelos seus nomes, pelas suas qualidades, pelas relações que entre todos os seres se estabelecem. Quero conhecer muito bem o mundo, para melhor me conhecer. Quero falar do mar ondulante, ou do ar quente que sinto, substâncias visíveis e sensíveis, mas é desta joga, branca, redonda e lisa, que tenho na minha mão, que quero falar. A gramática tradicional diz que este objeto, chamado “joga”, é um substantivo porque é uma substância. Compreende-se a definição e a validade da categoria morfológica assim criada. Por necessidade teórica, a gramática científica mais recente chama nome ao substantivo, e tudo se compreende e flui sem grandes choques. Eu quero denominar esta substância e vou chamar-lhe nome.

Eu digo que é uma joga porque assim aprendi de pequenino, quando ia molhar os pés no rio. Alguns amigos chamavam-lhe seixo; outros, pedra; outros, ainda, pedregulho, na hipótese dolorosa de tropeçarem nele. Com o passar do tempo, fiz outras aquisições léxicas, e pude verificar a existência de uma matéria, com tamanhos, cores e texturas diversas, a que chamam rebo, calhau, penedo, rocha e outras denominações que por aí vagueiam. Se procuro subir na hierarquia, se procuro o hiperónimo de todas elas, sinto dificuldade. Aponto para mineral, mas parece-me muito alto.
Será “pedra”?
Porque me pergunto?

Porque sinto esta necessidade imperiosa de conhecer as coisas e os nomes das coisas, de conhecer os hiperónimos e os hipónimos, de perceber sem enleios as relações hierárquicas que entre tudo se estabelece? Penso ter respondido a estas perguntas no dia em que, pasmado, usei a palavra “coisa” para denominar um objeto qualquer que fugiu já da minha memória. Recordo a minha estupefação ao aperceber-me da minha ignorância do nome da árvore, da flor, do animal ou da simples pedra, e ainda hoje penso no que me conduziu à palavra “coisa”.

É fácil, intelectualmente, subirmos à pirâmide hiperonímica e resolvermos problemas de denominação com esta simples palavra. O escritor, porém, tem outras obrigações, entre as quais se destacam o grande conhecimento do mundo e das palavras que denominam esse mundo. Quando digo “escritor”, posso dizer, também, professor, ou pai e mãe, ou amigo. É na família que a criança começa a olhar o mundo, a denominá-lo, a taxonomizá-lo. Compete depois ao professor alargar os seus horizontes com a informação lexical que é relevante na sua disciplina. Em Biologia, relevar-se-á a fauna e a flora, por exemplo, e os jovens saberão o nome das árvores, das flores, dos animais e de outros elementos que conformam o mundo.

O professor de língua portuguesa, produtor de interdisciplinaridades, conformará a passagem do mundo à representação do mundo, conduzindo o jovem à reflexão e à redação, elevando os seus níveis de compreensão e de resolução de problemas.
Um dia, alguns serão poetas, escritores, e transmitirão aos outros a sua sensibilidade, a sua emotividade e, em concomitância, a sua razão. Aprender a olhar o mundo, a dar nome às coisas, é o primeiro passo para a verdadeira felicidade.

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