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O sofisma

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O sofisma

Ideias

2019-09-20 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Julgo captar um sofisma nas considerações de boa parte dos meus concidadãos e desculpe, o meu bom leitor, se o viso inadvertidamente. Ora, quanto o PS do Costa é percebido nos antípodas do PS do Sócrates, o PSD do Rio é tratado como intrinsecamente idêntico ao PSD do Passos Coelho. Bónus/malus que de modo complementar se associa a uma segmentação arbitrária do leque partidário em direita/esquerda, e ao facto aparente de Portugal ser um país com uma maioria sociológica de esquerda – estabilizada, imutável, por assim dizer – por entranhada pobreza.
Ponderemos que a direita só vence eleições por vazio, por falência de uma clique de esquerda, ou por pontapés na caixa e ameaça de bancarrota. Esqueçamos os longínquos anos oitenta, que para entretém nos chegam os episódios de memória recente. Lembremo-nos do colapso do segundo executivo de Sócrates: qual a responsabilidade da direita – por simplificação – nos eventos? Nenhuma, acho que tal se dirá, ainda que haja nostálgicos de um PAC IV, chumbado, ao que se propala, por sedes de pote. Entram Passos e apaniguados, tocam o rebanho por espírito santo de orelha. Asneiram, de boa ou má fé, não sei. Entusiasmam-se, e dizem que apertam, não por ditado – o que reforçaria a péssima auto-estima – mas por convicção, para que corrijamos a trajectória e caiamos na real da nossa secular indigência.
Esqueçamos a vitória estéril de 2015, ou lembremo-la como geratriz de um conúbio anteriormente iludido: aleluia, temos esquerda de esquerdas fundidas! Oráculos de quanto é lado vaticinam o eclipse definitivo da direita. O PSD agonia, desmembra-se. O CDS definha. Nos salvados, uns grupelhos de duvidosa expressão procuram fazer prova de vida.
Estiola, o PSD, por eleitorado de sondagens que bandeia para o PS. Comenta-se que o PS governa tão à direita, e tão competentemente o faz, que o PSD fica sem trunfos, sem bandeiras, sem margem de afirmação. Para quê um PSD, fotocópia de um PS original em marcha?
O truque do PS só funciona com uns brindes fáceis de esquerda, naturalmente. Povo entretido raciocina com preguiça: quanto a direita é má, a esquerda é boa, quanto uma é retrógrada, a outra é progressista, quanto uma corta rendimentos e regalias, a outra prodigaliza-os, etc. E se, por pequeno AVC, perdesse um individuo os automatismos de pensamento? E se, por horror dos horrores, o PSD de Rio for um tudo-nada mais à esquerda que o PS acomodatício do Costa? Se um cai para a direita, para aumentar o rancho, por que razão estará vedada ao outro a operação simétrica? E, já agora, o que é que distingue um socialismo de rótulo, de uma social-democracia de etiqueta?
Mil perdões, eleitor amigo, se te encandeio com tanta luz, mas a mim, e com a actual safra, estou que de Maio para Abril não temos que rir. O PS e o PSD são vendas da mesma rua, com idênticos ramos de loureiro à porta, e um mais vistoso seja do que o outro, tal não me serve de garantia para o que possam tirar das pipas. Melhor vamos com meio quartilho deste e outro tanto daquele, e dos estalos de língua que dermos à prova.
Tenha Passos Coelho asneado para lá do aceitável, uma coisa nenhum de nós sabe: tivesse sido o casting ao contrário, um executivo socialista de salvação nacional teria feito diferente? Pacheco Pereira, do alto da sua torre de marfim, diz que Passos Coelho errou forte e feio, mas eu gostava de o ter visto com o menino nos braços.
Rio, sem a sorte de Costa, leva com a herança de Coelho. Costa, com uma maioria de borla, levará com um PS ávido e em ânsias, como o de Sócrates. Vira o disco, toca o mesmo.

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