Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O SUICÍDIO DO PAI NA VÉSPERA DE NATAL

Encontrão Ambiental

Ideias

2014-12-21 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Daqui a dois dias os cristãos no mundo inteiro irão celebrar o Natal, evento máximo da religião Católica e, por excelência, a festa da Família.

No entanto, para muitas famílias, o ano que está prestes a terminar, não será lembrado pelo exemplo dos valores da união, do respeito e da fidelidade. Dramaticamente, o número de casos que envolvem mulheres vítimas de violência conjugal atingiu proporções alarmantes no nosso país. Os números referentes a 2014 são verdadeiramente assustadores: morreram em Portugal, em média, uma mulher por semana, vítimas das agressões dos seus maridos, ex-maridos ou companheiros. Neste mesmo ano, outras 45 mulheres conseguiram ser poupadas, algumas por pouco, dos ataques dos seus maridos ou companheiros.

Ainda no mesmo sentido, por dia, apresentaram queixa na Polícia cerca de 70 mulheres, o que dá uma média de quase três queixas por hora! Os números, que foram registados pela UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), servem para avaliar este como um dos piores anos para a violência doméstica!
Esta triste realidade, mais própria de séculos anteriores, retrata bem aquilo que se está a passar no nosso país, fruto também da cirúrgica e metódica crise que nos atinge: desemprego e diminuição do poder de compra tornam, também, as mulheres mais vulneráveis e sujeitas à ferocidade de alguns maridos e/ou companheiros.

Para ficarmos com uma pequena noção deste atentado aos valores da família, no que concerne à violência conjugal, neste ano de 2014, os dados referentes a Portugal são até ao momento três vezes superior à realidade espanhola!

Neste contexto, há dados que referem que a violência surge no casal desde cedo, em muitos casos ainda no período de namoro. Muitos pais, naturalmente mais preventivos, cautelosos e estáveis emocionalmente que os filhos, tentam alertá-los para o perigo de relacionamentos com diversas personalidades de alguns indivíduos, que mais tarde podem tornar-se fatais. Assim, irei recordar aqui um caso que, apesar de ter ocorrido há mais de cem anos, revela-nos uma mensagem que nunca deve ser desprezada:
Tudo se passou na freguesia de Lamas, concelho de Santa Maria da Feira, e envolveu uma rapariga, que queria casar com um rapaz contra a vontade do seu próprio pai.

O pai dessa jovem era um abastado lavrador da freguesia de Lamas e sempre se mostrou contra o relacionamento que a sua filha mantinha com um rapaz de maus costumes. A filha, ignorando os pedidos do pai, mantinha permanentes contactos com o rapaz, o que aumentava a indignação do seu pai. Ignorando a sua oposição, a rapariga decidiu, inclusivamente, casar com o jovem, contra a vontade da sua família. Como era de maioridade, foi tratando da burocracia para a boda, tendo decidido que o iria fazer precisamente no dia 24 de Dezembro (de 1881), há 133 anos.
Intransigente, preparou tudo para a noite de Natal e… de casamento, continuando a ignorar os pedidos e ameaças do pai. Este, desesperado, vivia dias de enorme ansiedade, alguns deles de verdadeira loucura por não conseguir fazer com que a sua própria filha o escutasse, e logo num dos momentos mais importantes da sua vida, o casamento!

Na véspera do matrimónio, os vizinhos deste abastado lavrador ouviram um enorme estoiro na sua casa, acorrendo de imediato, para ver o que se passava. Foi então que se depararam com um cenário de horror e de emocionante sofrimento: depararam-se com o homem deitado no chão, a esvair-se em sangue, fruto do disparo que o próprio tinha deferido acabando por pôr fim à sua vida! Todavia, o que encontraram junto a uma mesa foi ainda emocionalmente macabro: encontraram um bilhete, no qual se encontravam as últimas palavras escritas pelo pai e dirigidas à sua filha. Nele, o pai dizia “Ali te deixo o meu sangue para servir ás tuas bodas ámanhã”.
Não sabemos se a jovem acabou por casar com o rapaz, mas sabemos da preocupação extrema que o pai tinha relativamente à sua filha. Se tinha ou não razão para temer o seu casamento, não o sabemos. Mas sabemos, no entanto, que os conselhos dos mais velhos, principalmente dos pais, devem ser sempre ponderados, pois nunca vêm por mal.


P.S. Quero, neste momento, aproveitar para desejar a todos os que nos rodeiam, um Natal repleto de duas coisas muito simples, mas que são cada vez mais importantes: Paz e Saúde!

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